Pois é. Eu não tive idade para ver Pelé, Zico ou Alberi. Não tive desgosto para me deleitar com Souza. Babei por Romário, Zidane. Encantei-me pelos Ronaldos, gordo e dentuço. Vi e vibrei com vários excelentes jogadores que pela minha ainda curta (ou não) existência passaram. Mas do mesmo jeito que ao homem só é permitido um time de coração, também o ídolo – o verdadeiro ídolo – não pode ter companhia. O meu chama-se Ivan Ricardo Alves de Oliveira. Ivan. O Terrível.
Essas coisas carecem de explicação. Como diria o outro: "eu não sei, só sei que foi assim". Mais rápido jogador que já vi, impetuoso, sabido, malandro – o Macunaíma potiguar. Talvez só por isso, talvez não, Ivan transformou-se naquilo que se salvava ao marasmo. Deixou de lado a chatice e a castidade dos seus pares e levou um pouco de cachaça para dentro de campo. Como profissional, era o não-atleta perfeito. Mas, ainda assim (ou por essa razão mesmo), deu-me todas as alegrias que meu coração alvinegramente sofredor poderia desejar.
Aqui não vale entrar nas suas conquistas e realizações, isso fica para as colunas oficiais. As minhas palavras morrem mesmo na mesa de bar, ainda que os dez mil pênaltis que ele forjou ao longo da carreira merecessem uma análise bem feita. Os gols de bicicleta e o seu driblezinho garrinchano para a direita, imarcável (ou não), deixo para quem viu usar os adjetivos que bem entender.
Da minha parte, já me contentaria por aí. Quando se recusou a entrar no território inimigo, ainda que fosse só para retirar um mísero abadá do Bicho-Papão, e eu estava lá, ao lado, e vi, quando Ivan negou tingir sua imagem de vermelho, a esse momento já erguera um busto na minha estima. Foi a única vez que vi o Terrível fora do gramado. Penso que de algum jeito ele sabia da minha devoção, só pode.
Ivan fez com que ontem o futebol amanhecesse ressacado, com gosto de guarda-chuva na boca. Aqui e ali, na Frasqueira, haverá quem deixe o bigode, em sua homenagem. Chegará cedo ao estádio, pedirá uma latinha de cana e ficará escorado na grade, assistindo o bczinho levar mais um gol. Vai dar segundo tempo e ele vai querer gritar, chamando alguém do banco que mude o jogo. Vai engasgar. O Ivan, matador, não vai entrar.

Pô, fiquei até com vontade de ver esse mito jogar, agora. Onde mais jogou Ivan, além do glorioso ABC?
ResponderExcluirDe qualquer forma, se o rapaz era bom de bola, o que dizer da aparência...
Diretamente do site abcnatal, respondendo o colega Rafael:
ResponderExcluirClubes: ABC/RN, Paulista/SP, América/MG, América/RN, Chunnam Dragons/Coréia, Flamengo/PI, Ríver/PI, Remo/PA, Atlético/GO, Futebol Chinês.
Ei Charles vc nao tinha dito que ele nao passava nem perto do America??????? Jogou logo em 2! Fiquei curioso pra saber como é esse Chunnan Dragons, vou ver se tem camisa no ebay a venda.
O barbeiro do pai do Glomer era quem aparava e cortava o cabelo do Terrível. Ele é americano e perguntou uma vez a Ivan por que não jogou nada enquanto teve no time dele. Ivan respondeu: "rapai, num dá né? sou abcdista". Acho que foi um momento de fraqueza; uma saudade que teve de Natal. Mas que logo passou e, só de arrependimento, ele decidiu que ia jogar mal.
ResponderExcluirAntecipando-me, aos americanos com menos senso de humor: é óbvio que isso aqui é uma brincadeira. Minha mãe e meu irmão torcem pro América. Eu mesmo sempre gostei muito de Souza e de outros jogadores "vermelhos". Só que falar de Ivan sem dar as alfinetadas no rival não dava, né?
ResponderExcluirSua falta de ídolos me sensibiliza. No máximo um companheiro de bar...
ResponderExcluirUma coisa é certa, o texto é brilhantemente bem escrito e o ídolo não é nem um pouco clichê, como não poderia ser diferente vindo de você! ;) bjo.
ResponderExcluirLiz.