Depois de um longo período improdutivo, faltando saco para escrever, aproveito aqui um trabalho que fiz para a faculdade para movimentar o blog - vai que assim recupero o ímpeto. Precisava fazer um perfil jornalístico sobre um anônimo. Lembrei do porteiro do prédio de um amigo. A história - verídica - é interessante.
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Perfil: O leitor
O morador do 503 estava de saída. Desceu pelo elevador e procurou o porteiro, a quem precisava deixar um recado. Zanzou pelo térreo, nada. Foi dar com ele já do lado externo do prédio, mas antes de ser visto, parou para observar a cena curiosa que se dava porta afora. Na rua, a Nossa Senhora de Copacabana, esperançoso em ver seu chapéu ao chão encher-se de moedas, um violinista tocava o seu instrumento. Nenhuma surpresa, os artistas cariocas estão sempre perambulando por aquela zona. A novidade para o habitante do Edifício Mecejana foi perceber que quem escolhia as músicas a serem tocadas era justamente o porteiro, escorado acanhadamente na pilastra. De Tchaikovsky, o músico emplacou um Villa-Lobos arranhado, mas o seu definidor de repertório gostou. Era o seu compositor preferido.
Lá em Boqueirão, na Paraíba, possivelmente ninguém, nem mesmo os familiares do porteiro de Copacabana, iria entender bem esses gostos estranhos do rapaz. Por lá a vida é dura, a roça é que dita os acordes. Os pais de Carlos André do Nascimento, criaturas boas, decentes, ainda que desejassem um melhor futuro para os dois filhos, não puderam prescindir da ajuda deles no sustento do casebre. A quarta série não chegou a terminar e já trabalhavam em tempo integral.
Aos dezoito anos, matutando no ônibus para o Rio de Janeiro, Carlos sabia que tinha tomado a decisão certa; não queria sofrer tanto quanto os pais. Ainda assim, seguindo sul adentro a trilha feita por milhares de nordestinos, não parava de pensar em casa. Mesmo hoje, homem feito, beirando os trinta, tem dúvidas se nasceu para viver longe deles. A infância no sertão, cuja recordação lhe mareja os olhos de saudade, é resumida em liberdade e simplicidade.
Lembra da difícil chegada na cidade grande. Esbarrou na solidão, companheira de alguns anos – até que encontrasse um par com quem hoje divide a vida; mas o que mais afetou sua sensibilidade latente foi o preconceito. Olhando para trás, acha agora que foi abocanhado pela depressão, como sua mãe um dia. Na época, doía não saber falar "corretamente", ser limitado nos assuntos. Queria poder surpreender, ter conhecimento.
Carlos não sabe bem em que momento da vida despertou sua paixão pela literatura. Na verdade, já na Paraíba queria ler, mas não tinha acesso. Foi só quando foi fazer um serviço no apartamento de Seu Renato que as portas para a leitura foram abertas. Bailarino do Teatro Municipal, dono de uma bela biblioteca, o morador, percebendo a empolgação do porteiro, perguntou que livro lia no momento. Era um livro didático de biologia, que tinha conseguido por aí.
Com a biblioteca de Seu Renato inteiramente disponível, com caixotes de livros que moradores em mudança deixavam, com outro tanto tomado emprestado, uma verdadeira batalha pelo tempo perdido foi travada. Quem passasse pela portaria, fosse de manhã, tarde ou noite, sequer veria o rosto de Carlos, afundado que estava nas páginas. Houve até quem se queixasse de que estava faltando atenção ao serviço.
Lia tudo o que aparecia pela frente. De Proust a Fernando Sabino, de Voltaire a Artur daTávola. A coleção de vinte e três volumes de Eça de Queirós ele comprou por seis reais, com uns vendedores meio suspeitos que andavam pela Praça XV. Sócrates, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, fala com proximidade e segurança dos grandes escritores. Mas não é bajulador; quando não entende o que dizem, não gosta.
O gosto pela literatura desembocou na música. No rádio, ligado baixinho na portaria, ouvia Rafael Rabello, Baden Powell, Vinícius de Morais, compositores de música erudita etc. Bastava fechar os olhos e se via em um palco, aqui ou fora do Brasil, dedilhando seu violão para um público extasiado. Mas o cansaço quando chegava em casa não lhe permitia exercitar os treinos que assistia nas videoaulas. Também, é sincero em assumir a falta de talento.
Segundo diz, o conhecimento que adquiriu na arte trouxe mais noção da condição humana. De fato, os moradores do Edifício Mecejana, que pouco ou nada conversam ao apressarem-se pelo hall de entrada, espantar-se-iam com as muito bem argumentadas posições do porteiro. Se não vissem ali apenas um introvertido sujeito "estranhão", embarcariam em profundas discussões sobre política ou sociologia, com ótima análise dos papéis sociais ou das precariedades da educação brasileira.
Já na despedida, usando as palavras de Renato Russo para sua fase "meio gota d'água, meio grão de areia", acha que para continuar vivo precisa simplificar, manter seu espírito jovem. E, logo depois de abrir a porta para uma moradora, recita um singelo poema que escreveu, "à la Patativa do Assaré":
No meio da multidão
E eu me sinto sozinho
Talvez por ser um pássaro
Que está distante do ninho
Eu encontro a alegria
Tocando meu violão
Indo a uma livraria
Ou vendo um filme de ação
Assim esqueço a saudade
Que o meu peito invade
Quando lembro do sertão.
Muito bom o texto! Parabéns e sucesso em sua vida! :**
ResponderExcluirAmeeeeei, Medeiros. Amei seus textos. Amei te ver no gás escrevendo de novo. Você é o meu predileto. Você sabe.
ResponderExcluirplac plac plac.
ResponderExcluiré mesmo meu orgulho esse menino.
Não pare de escrever, assim lhe tenho mais perto, mesmo silenciosamente.
Amanda Rêgo