A comissária Keyla Santos está constrangida. Do seu assento reservado, aquele no sentido contrário do avião, próximo à saída de emergência, ela não tem escapatória aos olhares ininterruptos do meu vizinho. Ele está demais. Divorciou-se há pouco tempo e puxa conversa tentando rememorar seus tempos de flertador. Mas está enferrujado. Começou agora há pouco se esgueirando pelos assuntos mais acessíveis à ocasião: fala da barrinha de cereal, do tempo lá no destino, das rotas que ela seguirá.
Keyla busca desviar das investidas, o vizinho é velho demais para ela. Finjo que não existo, cá tentando me entreter com a revista da companhia e digitando o que pensam ser um trabalho da faculdade. Lá pelas tantas, no entanto, ouço uma e tenho que me meter na conversa. A comissária nos confidencia uma novidade: este assento listradinho de vermelho e verde, que ora empurro com a bunda, em pouco menos de um mês custará algumas dezenas de reais a mais.
Isso mesmo. Em poucos dias, para se sentar na fileira da porta de emergência será necessário desembolsar uma bufunfa extra. Peraí. Deixa eu ver se entendi, querida Keyla. O único lugar que me cabe neste maldito cubículo alado vai cutucar meu bolso ainda mais? Estes parcos centímetros de alívio para minhas pernas também entrarão na dança do capitalismo doido? Perdão, vizinho, por atrapalhar tuas cantadas infames, mas, vem cá, dona Keyla, você tá de brincadeira comigo, né?
Tou medindo aqui. A distância entre os assentos normais, os desvalorizados agora, é de aproximadamente três palmos, contados do encosto à bandejinha da frente. Embaixo, a parada é sinistra: cabe apenas um, eu disse um, palmo desta minha mão tecladora. De modo que não é preciso qualquer demonstração física ou matemática para perceber que um cidadão de um metro e noventa e três centímetros simplesmente NÃO CABE neste bagulho.
Alguém tem de fazer alguma coisa! Não é possível que não exista uma associação-de-pessoas-maiores-de-um-metro-e-oitenta-e-cinco qualquer por aí, que possa fazer uma algazarra e mobilizar as autoridades a pensar na gente. A situação é claríssima: com os nutrientes e as vitaminas dos nossos biscoitos passatempo, a população a cada geração vai crescendo. Cobrar alguém por ser alto é o fim da picada - e das minhas pernas. Não bastasse a porra da barrinha de cereal, daqui a pouco, para poder voar, tenho que fazer trinta flexões de braço, rezar seis terços e ainda pedir desculpas por existir... #Prontodesabafei, dona Keyla, pode voltar pra sua paquera aí...
Aff, o pior é que tenho a impressão que o espaço fica cada vez menor.
ResponderExcluirDia desses viajei pela webjet e é simplesmente impossível que alguém um pouco mais alto ou que esteja um pouco acima do peso caiba ali.
Agora, a situação do seu vizinho já estava bem complicada (o cara estava falando de barrinha de cereal!), e você ainda monopoliza a Keyla com seu desabafo?!
Tsc, tsc... Achei que faltou companheirismo. Tenho certeza que essa moça não voltou nem perto dos assentos de vocês! Kkkk
Bjo
Simone
Mto bom seu texto.
ResponderExcluirengraçado e bem escrito!
é, vc é alto mesmo.
ResponderExcluirNinguem mandou crescer demais!!!!!!!!!!!11
ResponderExcluirAss;Flocos
É, eu sei, a culpta é minha.
ResponderExcluirimaginei tudo:seu tipico olhar de desconcerto, sobrancelha deslocada, inquietude...resmungo.
ResponderExcluiradorei o texto.
Regão