quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A desastrosa epopeia do cabaço de Riquelme

O assunto do cabaço de Riquelme virou pauta constante lá em casa. Chegava uma visita desprevenida, lá ia o salivante peludo em sua direção, precipitando seu imenso corpanzil sobre as pernas da desafortunada e iniciando suas obscenidades constrangedoras. Minha mãe não aguentou mais. Exigiu que arrumássemos uma cadela para que o maldito mamute pudesse descarregar sua púbere vivacidade. Após longa procura, conseguimos.

Mel chegaria no dia seguinte. Era fundamental criar uma atmosfera propícia ao romance, afinal é bem sabido que é a primeira impressão que fica. Deu-se início a mobilização para o embelezamento de Riquelme. O passo inicial, sabiamente capitulado por alguém como "descarrapatização", correu bem. Ele pareceu gostar, dando os tradicionais chutinhos quando tocávamos em alguma zona cocegarígena. Ao final, percebi um olhar meio nostálgico, como se ali estivesse se despedindo de bons e velhos amigos, que há meses compartilhavam de seu sangue.

O banho. Morando cinco bestas preguiçosas nesta residência, achamos por bem enviar o quadrúpede para cuidados profissionais. Gosto de pensar que sua higienização foi como um verdadeiro ritual de ofurô, acompanhado de suave música canina e velas com essência de tutano. Até consigo imaginar sua cara de satisfação, revirando os olhinhos enquanto escorria litros e mais litros de baba. Ele voltou todo cheio dos não me toques, trajando uma gravatinha colorida estilo pré-adolescente-"tou-na-moda".

Não é difícil supor que Riquelme estivesse já com aquilo pela cabeça. Segundo explicam os estudiosos, cada ano canino equivale a sete dos humanos. Utilizando nossa contagem, o pobre permanecia virgem quase aos trinta anos. Trinta anos! Deus sabe o que deve ter passado por sua cabeça quando Mel entrou pelo portão, lacinho cor-de-rosa na cabeça, andar de rechonchuda elegante, exalando talco e óvulos. Deve ter ficado louco.

Uma verdadeira plateia armou-se, por trás do vidro, para acompanhar o acontecimento. Após o cheira-cheira inicial, o jogo de sedução começou. Riquelme mostrou-se um autêntico gentledog, oferecendo o seu buraco na areia para o descanso da donzela. Só o tapete é que a impediu de usar, por certo querendo mostrar que também precisava de um espaço só para si. Passearam pelo jardim, rolaram pela grama, dividiram o balde d'água – a simbiose mágica, o amor. Quase.

Faltava o gran finale, a apoteose, o final fatality. Faltava a cópula e estariam todos, da minha mãe às visitas, da proprietária de Mel aos astros, estaríamos todos exultantes de felicidade, abraçando-nos em meio a estouros de champanhe e votos de boas festas. Mas não. Víamos o erguer das patas, que não revelavam mais que um peso sobre as costas da cachorra. Víamos os inócuos movimentos, sem qualquer propósito, a la comédia de besteirol americano. Víamos a face impaciente da bichinha, que, desapontada, começava a pensar que o problema era consigo. Víamos e, impotentes, não podíamos fazer nada. Riquelme não conseguiu.


Riquelme (a esq.) revira os olhos e faz carinho em Mel. Ele não conseguiu.

9 comentários:

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Ri muito!

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  2. Posso falar com propriedade que seu cão tinha um problema sério. Em tempos remotos fui uma dessas pernas que sofreu o ataque do Riquelme. Resultado? Uma saia rasgada... Que vergonha pra quem acabara de chegar!

    Mas, deixando meu depoimento de lado, tenho que mostrar minha indignação com vocês. Sim, vocês aí, que ficaram atrás das cortinas. Imagine a tensão da primeira vez de um ser, unida a expectativa de cinco olhares curiosos? Só poderia acabar assim: Brocha! Visualizo a carinha de preocupação do pobre Riquelme diante de todos aqueles olhares desapontados. Inteligente como ele é, a esta altura, seu cão já sabe que todos desconfiam de sua macheza e sabe que será difícil arranjar outra namoradinha quando o boato se espalhar pela cidade.

    Agora é o momento de dar o passo 7: Marcar urgentemente uma consulta com Dr. Nogueira.

    Ass: Eu

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  3. Pois é, voyeurismo animal, cada doido com sua mania...

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  4. Oh brother, eu tava embriagado, mas eu disse que lembrava...kkkk

    Gostei do blog, muito massa!!

    Abraço

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  5. Adorei o "voyeurismo animal", gordo. Minha impressão é que Riquelme é zoófilo - sente atração sexual por gente, mas não pelos seus iguais.

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  6. rsrs...
    quem viu o filme "O virgem de 40 anos" pode reparar que não é "um", algo indefinido, é "O" virgem, pois quase não existem mais... daí tenta imaginar o que se passava na cabeça desse animal, que aliás, a única cabeça que raciocinava o fazia se distanciar mais e mais de sua realização tão sonhada e do grande alívio para sua "família"... nos mais primórdios tempos, os pais sentavam com os filhos antes de casarem e explicavam a eles como proceder com a virgem, para que tudo fosse maravilhoso... assim mesmo se deve proceder com o cão... você, o culpido, precisa ajudar o inexperiente a copular com sua amada, até mesmo, se necessário for, direcionar a sua espada, no caso a de riquelme, para ser fatal em seu ataque... tenho um labrador, e isso me custou umas gozadas nos braços e pernas... mas depois que ele engatou, seu nome agora é garanhão!
    cara, Lirane me falou sobre a mudança pra Jornalismo... você escreve bem! e isso pode te render vários livros... espero que tenha sucesso nessa nova jornada!

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