É, o assunto das figurinhas passou. A esta hora, todos já exibimos na estante, com orgulho, o caderno vermelho com todos os seus seiscentos e tantos espaços devidamente preenchidos. Perdi a toada, a pauta é outra, mas a saga tem que continuar. O último episódio, a consagração. Volto correndo depois, redimir-me-ei.
O álbum encorpou-se, pois. Vêm as trocas. Os corredores dos locais fechados são sempre os melhores lugares. Se você ainda estuda, colégio ou faculdade, filé. Dois pequenos relatos para ilustrar a sublimidade da troca. Dois amigos. O primeiro, médico. O paciente teve que esperar; havia outro médico com figurinhas no consultório. O segundo, advogado. Viagem a trabalho para São Paulo. Antes de ir, o que pesquisar? Google: "melhor local para se trocar figurinhas em São Paulo". Vão do MASP. Veio.
As trocas de figurinhas são, talvez, a maior forma de socialização encontrada na terra. Pierrre Bourdieu encontraria o seu exemplo mágico para a explicação dos campos sociais, do hábitus, sei lá. Beber e fumar são ótimos em integrar desconhecidos. Mas há neles, ainda, um ranço de constrangimento. A bebida demora um pouco a pegar para que o assunto saia. O papo enquanto se fuma é um pouco enfadonho: fala-se do DJ, que tá mandando bem; fala um que ficou sem fumar seis meses, o outro responde, dizendo que voltou ainda agora; calam-se.
Trocar figurinhas é diferente. O primeiro contato é totalmente espontâneo, não precisa falar nada, só entregar as suas. Os assuntos fluem com naturalidade, sem pressa. Ao final, se você consegue uma figurinha muito procurada, aquele cara já é seu brother; já se despede com um abraço.
Algumas regras devem ser observadas: a troca é, a princípio, um contato bilateral. Foda quando você tá passando as figurinhas, uma por uma, e vem alguém por trás, esperando a vez e fica dizendo: "já tenho, já tenho, não tenho, já tenho". Deve ser evitado. Também sou contra a fixação de pesos para determinadas figurinhas. Pô, não importa se ela é prateada, se é o escudo, se é o jogador mais procurado do álbum. Se for repetida, vale o mesmo que a minha. Não já disse qual foi minha última? Um mísero goleiro da Argélia, e não o troféu da última página, que me veio aos montes.
Uma coisa que também me incomoda é a avareza. Quando o álbum de um dos trocadores já está perto do fim, é normal que o outro ache muito mais figurinhas novas do que ele. O impasse deve ser resolvido com bom senso. Não custa nada entregar quinze figurinhas e receber apenas onze. A maleabilidade é parte da interação. A consideração por aquele cara que te deixou levar todas que você achou do bolinho dele, enquanto que ele só achou umas poucas do seu, é imensa. Por fim, conselhos básicos: elástico (liga, na minha terra) no bolinho. E ordem numérica, por favor.
Eis que, milagrosamente, já faltam apenas sete, seis. Já não é mais nem necessário aquela folha rasgada de caderno com os números faltantes. Sabe-se de cor. É um momento de conflito, pois há, ao mesmo tempo, a ânsia por completar o álbum e o desejo sincero de que aquilo não acabe nunca. Afinal, haverá mesmo vida após o fechamento? Terei que esperar mais quatro anos para ser tão feliz assim de novo? A saga termina, nostalgicamente, sem que eu arranje um finalzinho emocionante para ela.
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