quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Saga das Figurinhas - Parte II

Não se sabe bem como a coisa começa. Na verdade, creio que não existe essa do primeiro a aparecer com o álbum. Há algo de inconsciente coletivo, poder das massas, acaso. Só sei que, do nada, já têm uns cinco amigos ostentando o bendito. E aí, acredite, é inevitável comprar. Não para se sentir parte do grupo, não para mostrar que também é capaz. Mas por inveja. Vê-se o brilho nos olhos dos colegas. É como se estivesse fora do mar, olhando todos se divertirem lá dentro, e não entrar.

E quando se entra, tem que ser duro. O álbum, leitor, é um filho. Serão muitas etapas até atingir a plenitude, até virar homem. Até lá, uma profusão de sentimentos já terá despertado em você. A batalha durará e exigirá esforço. Desistir, jamais. O colecionador tem um código de ética a seguir. Mandar email para a Panini solicitando as figurinhas restantes é a admissão do fracasso. É fraqueza, vergonha, descomprometimento; o traidor não merece consideração.

Como disse, o blog é um filho. Nasce indefeso. Não se concebe que aquilo ali um dia se completará. Para piorar, parece que você é sempre aquele com menos figurinhas coladas; os amigos sempre têm mais. Nesse momento, praticamente não há trocas. Cada participante da peleja trava uma batalha solitária. Um demorado conflito entre sua vontade de comprar um bolão, para logo terminar, e a mísera quantia diária que o seu pai lhe dá (ou que você se dá).

Colecionador que se preze não compra 6, ou 8 pacotinhos. Ou é 5 ou 10. Sem frescura. Sai da banca e vai com uma ansiedade monstra para casa. E aí entra a superstição (ou técnica) de cada um. Alguns preferem rasgar o pacotinho longitudinalmente, outros lateralmente. Uns vão conferindo e colando as figurinhas tão logo elas saem; outros fazem um montinho das repetidas e não repetidas, para só depois colar. Há também divergência na forma em que se retira o papelzinho branco de trás. Eu, particularmente, dou sempre uma amassadinha milimétrica no canto superior esquerdo, e aí puxo uma brecha que se destaca do adesivo.

Um elemento, no entanto, é praticamente unanimidade: você jamais verá alguém permitindo que outro abra o seu pacotinho. Essa demonstração de egoísmo é plenamente justificável. A abertura é um momento de inexplicável prazer. Encontrar aquele rosto desconhecido na figurinha faz com que um discreto sorriso apodere-se na face. Internamente, uma voz solta, bem na hora, um "Yes!" ou "Pega, porra!". Quando é, então, uma figurinha muito procurada, é desconhecido qualquer registro de pessoas que não gritaram.

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