terça-feira, 6 de julho de 2010
Do outro lado
Enquanto escrevo, com a vista enevoada de remelas e saudades, lembro de um sonho que tive de ti. O sonho tinha cor de sonhos, portanto cinza-azulado, e cheirava à panela vazia. Mas, ainda que não saiba bem o que se sucedia no sonho, lembro, como se de fato tivesse vivido, vivido hoje mesmo, enquanto fechava meu livro e punha-me a escrever, lembro, digo, perfeitamente, e sinto frio, o olhar que me dirigias. Havia uma porta, e através dela tu lançavas-me um olhar. Ainda que fosse poeta, e não amolador de cartas jogadas ao colchão, ainda que fosse tu, não saberia, ainda, o que havia naquele olhar. Tu sentavas num sofá baixo, não sei se de roupa, e tinha a cabeça apoiada no braço. Não havia lágrima. O rosto era tão sem expressão – mesmo agora, mais uma vez, ante a lembrança, ponho-me a chorar –, o olhar tão duro, que devo ter tremido. Digo devo, porque não me lembro de mim neste sonho. No outro lado da porta, onde imagino que estava, aparentemente não havia vida. O olhar congelava os pensamentos, desdizia amores. Era tão escuro e tão frio que ser algum poderia sobreviver. Acho que me apequenei, tornei-me invisível. Vejo as cartas e não entendo. Sinto vontade de respirar, mas é tudo tão difícil. Pergunto-me, como em toda madrugada, se aquele sonho não existiu. Forço a memória e não encontro nada. Vem-me à mente uma gangorra, não sei por que. Choro e te mando aparecer ao meu lado. O que aquele olhar mudo me dizia no sonho já se dissolveu na aurora. Vai reaparecer hoje à noite, e vou lembrar-me de ti.
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cada vez mais foda!
ResponderExcluirParabéns pelo blog, Medeiros! Muito bom! Só li esses 2 últimos textos - por que só segunda pessoa? - E o de Saramago - ótimo! Ensaio sobre a cegueira foi o primeiro livro que li dele. Incrível!
ResponderExcluirEstou orgulhosa com mais um amigo escritor que resolveu nos presentear com seus textos =*
Uma tecnicazinha que tentei usar. Quis que não fosse possível saber, nos dois textos, se o narrador era masculino ou feminino. Se fosse terceira pessoa, com um narrador observador, seria difícil. E se fosse primeira pessoa, não atingiria meu objetivo, de ser um "desabafo" para o outro. Enfim, foi uma tentativa ehhe.
ResponderExcluirBrigado por me presentear com a visita.
de certa maneira o essencial não se perdeu. sonhar é uma necessidade (ou um vício).
ResponderExcluirparabéns, meu caro.