Era bom quando ainda podia ouvir tua voz ao meu ouvido. Sei que às vezes pedia para calares tua matraca de doida desvairada, mas no fundo, no fundo, eu gostava. Reclamava, acho, só para te fazer rir das minhas rabugentices sem motivo. Só que aí, ao invés da boca descontrolada, tu encarnavas uma gargalhada alta, meu Deus, muito alta. Tua gargalhada era meio estranha, era composta de gritos. O primeiro assustava quem passava perto de onde estávamos, lá na praia. Depois ia diminuindo, acalmando.
Estendíamos a canga de desenhos psicodélicos na areia, cavando buraquinhos nas quatro pontas para que o vento não levasse. Eu segurava de um lado, tu do outro, e brincávamos, antes de enfiar, de alguma coisa meio sem sentido, balançando o pano para cá e para lá. Talvez tu não tenhas reparado, mas eu deixava o lado a favor do vento para ti – para que não te enchesse de areia quando me mexesse.
Deitávamos. Ligávamos teu sonzinho, eu com o fone na orelha direita, tu na esquerda. Era bem provável que tu viesses com um samba estranho que ouviu nos bares estranhos que tu ias com tua galera estranha, mas eu me adiantava. Mandava um Los Hermanos baixinho, começando com De onde vem a calma, cujo primeiro acorde, bem de supetão, elevava nossas cabeças para algum ponto estratégica e perfeitamente situado no meião da mesosfera, de onde estaríamos a salvo de todos os urubus e aviões a jato da redondeza, e de onde poderíamos assistir, com os dedos mindinhos dos pés elevados sobre seus vizinhos, ao majestoso e único pôr-do-sol que se sucedia ali embaixo, aos pés do Morro do Careca.
Eu, me agoniando todo por não encontrar uma posição inofensiva às minhas costas, procurava um galhinho enterrado na areia e punha-me a desenhar nomes engraçados e pornografias. Pensava em começar a te contar uma história mirabolante que me ocorreu no dia anterior, mas ficava com preguiça e deixava para lá. Não havia nada que eu pudesse contar que já não soubesses. Teu monólogo plainava em uma das dimensões paralelas que eu requisitava para a hora e era tragado pelo barulho do mar.
Sei que a tarde ia embora naquele silêncio dos teus gritinhos e naquela paz que nem as formosas sequóias-gigantes do norte californiano poderiam sequer sonhar. Naquele nosso calhambeque velho, comprado a troco de gelo nos ombros, nós embarcávamos no mundo kerouacquiano da mais verdadeira amizade existente na Terra.
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ResponderExcluirintenso, ou mais que isso.
"...de onde poderíamos assistir, com os dedos mindinhos dos pés elevados sobre seus vizinhos, o majestoso e único pôr-do-sol que se sucedia ali embaixo".
agora: matraca calada, nem doida nem desvairada.
choro quietinho.
amei.
não solta da minha mão, não solta da minha mão...
" Talvez tu não tenhas reparado, mas eu deixava o lado a favor do vento para ti – para que não te enchesse de areia quando me mexesse."
ResponderExcluirAmar é ter espaço. E é por isso que ele tem a justa-proporção desses imensos pequenos feitos.
Gostei do blog, encontrei por acaso.