terça-feira, 22 de junho de 2010

A Fábula dos Merecidos

Lá numa terra bem bem distante, não se sabe por que cargas d'água, um belo dia resolveram, cansados de tanta amolação, eleger um jumentinho de carga para novo representante do povo.

O jumentinho, que não era lá capaz de tanta ideia boa na cabeça, se gabou todo. Endireitou a postura, deu um corte moderninho na crina, fez as dez unhas de suas patas e, na falta de animais mais capacitados, acabou virando governador da patota. Disse que faria muita coisa pelos seus queridos eleitores. Mas logo nos primeiros dias, faltando-lhe a esperteza dos grandes primatas, deu uma de jumento de carga e fez distribuir aos miguxos da corja umas espigas de milho a mais. Eles se apressaram em esconder em tudo quanto era buraco da roupa que podiam: meias, cuecas e o escambau. Só que vacilou o jumentinho: esqueceu de alisar as mãos de uma bendita cobrinha. Ela ficou de mal. Fez um vídeo da fanfarrice das espigas e mostrou ao povo, que sequer tinha uns carocinhos. Pegou mal.

Noutra terra, esta aqui ainda mais distante, também não se sabe lá por qual razão, resolveram que o novo treinador da seleção de totó seria um dos sete anões. Houve uma certa repercussão, acusaram-lhe de inexperiente, mas o povo acabou engolindo. Afinal, não havia na Terra grupo de totistas mais vistosos que os daquele time, até um jumento de cargas faria um bom papel. O coitado do anão, que antes de minerador já tivera uma distinta passagem como bruto operário do meio de campo, não era muito chegado a cortesias. Na verdade, era rabugento de doer. Mas até que iniciou bem.

Para começar, deu também logo um trato no visual. Ele, que antes costumava passear vestindo uma camisetinha Bad Boy, com os olhinhos zangados entrecruzados, virou chique. Mandou a Branca de Neve coser umas roupas da moda, caprichou no gel de cabelo e pôs-se a trabalhar. Era implacável. Não deixava totista algum tentar dar uma saiota no adversário, tampouco banho. Queria peças de força, que davam um bicão de trás, rodando e tudo, e faziam gol. Coisa de macho.

Acontece que na floresta onde treinava os seus discípulos rodantes, havia também muita rainha má. Uma delas, certo dia, disfarçou-se de príncipe encantado, na pele de um jornalista. Era maligna, arquitetou um plano perfeito. Queria que toda a população se voltasse contra o treinador. Queria mostrar que ele não era guerreiro coisa nenhuma; não passava de um grosso minerador de cabelo porco-espinho. O plano era encher o saco até ele perder a paciência. Não foi difícil. O emburrado anãozinho, vendo o garboso príncipe ao telefone, a descuidar da tarefa de mimá-lo e exaltar suas vestimentas, desceu a picareta com tudo. Amaldiçoou a quinta geração do jornalista e suas palavras foram parar no Diário Encantado. O povo ficou sabendo. Não gostou da má educação do dito cujo. Pegou mal.

A fábula chegou para os Irmãos Grimm. Queriam uma moral da história boa. Nem eles conseguiram. Ficaram tão estupefatos com a falta de atitude do povo, a aceitar animais e personagens literários como seus representantes, que se recusaram a colaborar. Disseram que nós temos o que merecemos.

3 comentários:

  1. Fala, Gabriel. Como o blog é novo, consegui ler todas as postagens. Tá massa. A saga das figurinhas está cheia de reminiscências a um passado saudoso e traz a justa empolgação da redescoberta de um grande prazer. As justificativas também ficaram boas e essa fábula também é bastante oportuna.

    Mas o que eu mais gostei foi da despedida ao Saramago. Ficou muito bom. Muito bom mesmo! Na medida certa.

    Agora, só falta escolher um outro nome para o blog.

    Continue atualizando. Vou virar freguês daqui.

    Valeu.

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  2. Olhaí! Que legal Gaibriel, continua sim..bjs

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  3. Não apoio os xingamentos de dunga, MAS APOIO sua politica de preservar os jogadores e manter o foco nas partidas.

    SE LIBERAR OS JOGADORES PARA ENTREVISTAS TERÁ QUE SER PARA TODAS AS EMISSORAS E NÃO SÓ A GLOBO.

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