Já não distinguia bem as faces à minha frente. Devo ter abraçado inimigos, ignorado velhos parceiros, trocado horas de conversa com meros conhecidos, com quem usualmente teria dúvidas em dever cumprimentar. Até querer fumar e dar uma de brabão eu dei. Tava tão bêbado que, não tenho a mínima ideia por que, resolvi que devia andar.
Baixou-me uma tal de Síndrome do Forest Gump. Devem ser uns dez quilômetros de distância da onde eu estava até minha casa, ou mais. E havia taxis, caronas. Mas minha inebriada massa encefálica fincou os pés na maldita decisão de voltar... a pé. E lá me fui, em plena madrugada, sem medir as consequências da empreitada: não pensei no tempo que me tomaria, nas prostitutas e travestis que encontraria no caminho, no constrangimento de encontrar colegas pelos "baurus" da cidade e ser por eles taxado de doido.
Caminhava pensando em minha situação. É difícil voltar para a cidade natal, após algum tempo longe. Os dias que precedem à viagem foram de pura ansiedade. Coloquei aquela contagem regressiva no Messenger, deixei recados no Orkut dos amigos, avisando a data e hora da chegada, marquei cachaças para todos os dias da semana. Criei, enfim, uma expectativa das mais perfeitas férias da vida. Bastava fechar os olhos para imaginar nitidamente um batalhão de amigos, todos na praia, tomando cerveja após o surfe, comendo camarão, rindo de qualquer merda, só esperando à hora da balada. Lá, encontraria quem não via há anos. Eles ficariam felizes, conversaríamos sobre a vida, beberia sem me preocupar com nada; afinal, no próximo dia haveria mais. Era só fechar os olhos. Essa era a imagem.
A gente pensa que a vida caminha no nosso ritmo. A cada passo que dava na minha solitária jornada, percebia que nada era como antes. Ou melhor, tudo era como antes, mas eu é que não sou mais como antes. Sou outro. Sou, agora, um intruso em uma terra que não me deve mais explicações. O duro do asfalto me fez lembrar que minha presença já não é mais esperada. A vida das pessoas segue. Não importa se quero continuar bebendo até as oito da manhã; amanhã, elas já têm pedicure, e não mudarão por minha causa. Não importa se quero abraçar todos, conseguir tocá-los e fazê-los entender a saudade que sinto deste lugar. Nada importa. A paquera de um ainda não chegou, e só isso é importante para ele. Basta notar que estou mais magro, que é o assunto que falarão depois. Como eles não podiam perceber meus olhos de felicidade? Cadê meus amigos na praia, quando surfei só? Cadê a super festa que me prepararam para rever a sociedade, com faixas, bolas e microfone, aguardando o meu discurso? Cadê a minha velha vida que deixei parada por aqui?
Não sentia mais as pernas ou os calos na planta dos pés. Não era mais eu quem andava. Era o meu passado, que ficou perdido em algum canto da cidade.
"Ou melhor, tudo era como antes, mas eu é que não sou mais como antes." exatamente o sentimento que tive quando regressei após 1 ano longe!!!
ResponderExcluirlegal o texto
Realmente esse trecho descreveu tudo. Não leve isso como uma coisa negativa, não se acomodar no conforto da vida da cidade natal é um grande passo e leva a gente a ser sempre melhor e pronto pra encarar o mundo.
ResponderExcluirAhahah, isso é ficção po (ou não - fica a dúvida). O eu-narrador e o eu-autor são duas pessoas diferentes. Não necessariamente se confundem. Ou melhor, quase nunca se confundem... Mas, ele agradece os conselhos, mano dinda.
ResponderExcluirAmigo conheço, e muito bem, esse sentimento acima descrito. Só não acho que mudamos.
ResponderExcluirSei bem o que você sentiu...
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