Lembro que te disse das minhas linhas. Que nunca lesses imaginando serem meus aqueles sentimentos. Que não encarnasses na pele feminina dos meus dedos, achando seres tu a mulher perdida, a mulher amada, a mulher cuspida. Recordo que penasses para aceitar, achavas por certo que assim me esquivo das responsabilidades do meu pensar.
Pois. Escrevo agora. Para ti. Ainda que o "ti" seja justamente a personagem sobre quem te proibi de levantar tais suspeitas.
É sensato pensar que hoje tu acharás tudo isso uma imensa tolice, um grande despropósito. Daquele tempo, imagino, só te resta a lembrança de uma criatura chacoalhada pela juventude. Que suava entusiasmado, gargalhava sem critério e clamava para que todas as pessoas estivessem naquele momento olhando o mundo com seus olhos esbugalhadamente felizes. Já faz tempo.
Calei, ali, quando podia ter dito algumas coisas que mudariam o prumo de toda minha vida.
A primeira, e certamente mais perturbadora, é que eu gostava de ti. A segunda, e que tenta explicar o que agora disse, é que eu tinha medo. Se tive medo pois gostei, ou gostei por causa do medo, eu realmente não sei. O que asseguro é que naqueles poucos segundos que antecediam tuas respostas, nas nossas conversas perdidas na madrugada, eu me pegava enfeitiçado; e se houvesse possibilidade de veres minha face, assustar-te-ias com um bobo sorriso de pré-adolescente que desafiaria o mais incrédulo dos filósofos da paixão.
Percebes que digo coisas fortes. Mas, por favor, não me culpes. Eu tive medo.
domingo, 14 de novembro de 2010
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Papeado de carteiro
Havia alguma coisa de nobre no seu andar de carteiro. Não que o seu bom dia fosse assim mais de respeito que o do pessoal, ou que aprumasse com maior pompa os envelopes na portinhola. Na verdade, acho que não me engraçaria tão à toa por aquele tiquinho de gente, inda mais metido naquele apapagaiado terninho amarelazul. Mas era, bom que se diga, de feitura aprazível, nem pouco, nem muito, mas tudo nos conformes, conforme se diz.
Foi quando inventou de se chegar, na sua mansidão de beira de estrada. Por certo viu que as correspondências do Dr. Juarez não vieram aquela semana, pois que perguntou baixinho: o patrão viajou pros estrangeiro? Confesso que estranhei, cabra assim dando conta da rotineira do escritório. Mas, nem bem pensei, ele mandou outra: fôsse tu, pudesse escolher as férias da vida, como é que seria? Aí foi demais. Seu Entregador, não se chateia não, mas vê que a papelada tá pesada pro dia de hoje – foi o que eu disse. E de fato tava, num sabe? Mas foi mais de acanhamento. Queira ou não, eu ainda tava com Eliélton na época. E tudo se transcorreu sem maior novidade naquela sex... sim, era sexta.
Acontece que essas coisas de sentimento a gente não sabe como é que é, né mesmo? Não foi que no caminho da lotação, no meio daquele espremido de nhaca, eu não me peguei pensando nas férias que eu sonhava ter? Foi tanto de pensamento doido, imaginando o tal do dia perfeito, viajando, num sei quê mais, que quase que perdi o ponto. Acordei meio desconfiada, com vergonha dos outros estarem ouvindo minha imaginação. Lembro que o falecido ligou depois, avisando que a moto pifara, e que não apareceria lá em casa pra nosso filme de sempre. Nem reclamei, acredita? Só sei que naquela noite, já deitada, tive um sonho esquisito. Eu tava num avião, toda posuda, indo visitar as Europa, quando reparava que a portinha da cabine tava aberta; eu esfregava os olhos pra poder enxergar direito, até que pude reparar bem: quem pilotava a nave era o bendito do carteiro.
Se eu dissesse que foi fácil, a partir daí, eu tava mentindo, mulher. Dá umas gasturas escabrosa pensar em ter que trocar o certo pelo duvidoso, a papa de aveia pelo picolé de limão. É ruim, aperta as tripas, embrulha as ideias, desperta vontade de dar grito. Subia a ruela de carreira, só queria saber de ficar só, pramóde de aguardar uma graça que arrancasse aquela ruma de confusão do meu cocuruto.
Só que o troço foi ficando mais e mais grave. Não tivesse você com pressa pra se ir, eu contava da segunda-feira, quando o danado se chegou com outra pergunta, queria saber qual tinha sido a primeira coisa que eu tinha pensado naquela manhã, pode isso? Ou da terça, quando me dizia pra contar de qual lado da pasta de dentes eu começava apertando, se do finzinho ou da boca. Não sei bem da onde ele tirava aquelas invenção. Pra mim era coisa de gente desmiolada, mas, biruta ou não, na quinta nem na sexta ele foi, e eu dei falta daqueles nossos cinco minutinhos de lero-lero.
Quando dei por mim, já não havia mais Eliélton, papa de aveia ou certeza na minha vida. Entreguei tudo pra Deus, sabe? Aquele carteirinho já era a salvação do meu dia, a única coisa que realmente importava. Vinha sempre com as histórias que via nos becos, um tal de um gato malhado que ficou preso no bueiro, um molecote que tinha as canela preta, pois que não conseguia esticar o braço pra lavar com sabão, a cantiga de um caracol que perdeu a gosma e não pôde mais andar... Eu riiiiiia, mulher. Hoje arrepito o que ele me disse no dia que o porta-cartas se rasgou debaixo de chuva: tudo é muito simples, tudo é muito simples; a gente é que cria os problema.
***
Em tempo, o texto sobre a arte de portar um guarda-chuva acabou ficando mesmo sem Parte Final. A intenção não era dividí-lo, mas o pobre do blogueiro adormeceu e não conseguiu acabar tudo no mesmo dia. Entraria agora a parte que falava propriamente do congestionamento de sombrinhas, na Paulista. Só que a ideia já não me parece mais tão interessante de se escrever. Se um dia sair, damos um jeito de consertar a bagunça.
Foi quando inventou de se chegar, na sua mansidão de beira de estrada. Por certo viu que as correspondências do Dr. Juarez não vieram aquela semana, pois que perguntou baixinho: o patrão viajou pros estrangeiro? Confesso que estranhei, cabra assim dando conta da rotineira do escritório. Mas, nem bem pensei, ele mandou outra: fôsse tu, pudesse escolher as férias da vida, como é que seria? Aí foi demais. Seu Entregador, não se chateia não, mas vê que a papelada tá pesada pro dia de hoje – foi o que eu disse. E de fato tava, num sabe? Mas foi mais de acanhamento. Queira ou não, eu ainda tava com Eliélton na época. E tudo se transcorreu sem maior novidade naquela sex... sim, era sexta.
Acontece que essas coisas de sentimento a gente não sabe como é que é, né mesmo? Não foi que no caminho da lotação, no meio daquele espremido de nhaca, eu não me peguei pensando nas férias que eu sonhava ter? Foi tanto de pensamento doido, imaginando o tal do dia perfeito, viajando, num sei quê mais, que quase que perdi o ponto. Acordei meio desconfiada, com vergonha dos outros estarem ouvindo minha imaginação. Lembro que o falecido ligou depois, avisando que a moto pifara, e que não apareceria lá em casa pra nosso filme de sempre. Nem reclamei, acredita? Só sei que naquela noite, já deitada, tive um sonho esquisito. Eu tava num avião, toda posuda, indo visitar as Europa, quando reparava que a portinha da cabine tava aberta; eu esfregava os olhos pra poder enxergar direito, até que pude reparar bem: quem pilotava a nave era o bendito do carteiro.
Se eu dissesse que foi fácil, a partir daí, eu tava mentindo, mulher. Dá umas gasturas escabrosa pensar em ter que trocar o certo pelo duvidoso, a papa de aveia pelo picolé de limão. É ruim, aperta as tripas, embrulha as ideias, desperta vontade de dar grito. Subia a ruela de carreira, só queria saber de ficar só, pramóde de aguardar uma graça que arrancasse aquela ruma de confusão do meu cocuruto.
Só que o troço foi ficando mais e mais grave. Não tivesse você com pressa pra se ir, eu contava da segunda-feira, quando o danado se chegou com outra pergunta, queria saber qual tinha sido a primeira coisa que eu tinha pensado naquela manhã, pode isso? Ou da terça, quando me dizia pra contar de qual lado da pasta de dentes eu começava apertando, se do finzinho ou da boca. Não sei bem da onde ele tirava aquelas invenção. Pra mim era coisa de gente desmiolada, mas, biruta ou não, na quinta nem na sexta ele foi, e eu dei falta daqueles nossos cinco minutinhos de lero-lero.
Quando dei por mim, já não havia mais Eliélton, papa de aveia ou certeza na minha vida. Entreguei tudo pra Deus, sabe? Aquele carteirinho já era a salvação do meu dia, a única coisa que realmente importava. Vinha sempre com as histórias que via nos becos, um tal de um gato malhado que ficou preso no bueiro, um molecote que tinha as canela preta, pois que não conseguia esticar o braço pra lavar com sabão, a cantiga de um caracol que perdeu a gosma e não pôde mais andar... Eu riiiiiia, mulher. Hoje arrepito o que ele me disse no dia que o porta-cartas se rasgou debaixo de chuva: tudo é muito simples, tudo é muito simples; a gente é que cria os problema.
***
Em tempo, o texto sobre a arte de portar um guarda-chuva acabou ficando mesmo sem Parte Final. A intenção não era dividí-lo, mas o pobre do blogueiro adormeceu e não conseguiu acabar tudo no mesmo dia. Entraria agora a parte que falava propriamente do congestionamento de sombrinhas, na Paulista. Só que a ideia já não me parece mais tão interessante de se escrever. Se um dia sair, damos um jeito de consertar a bagunça.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Da incrível arte de manusear um guarda-chuva na Avenida Paulista, às seis da tarde - parte I
O leitor paulista não vai saber o propósito do texto; vai, por certo, achar sem graça, forçado. Mas sei que lá pelas nossas bandas nordestinas, ao menos um exemplar da espécie Homo Galadus vai entender direitinho o que eu estou falando.
Um belo dia, alguém importante do meu estado, no uso das atribuições a si conferidas pela sociedade, instituiu: é proibido o uso de guarda-chuva no território potiguar. Pensei muito antes de escrever a palavra "proibido"; na verdade, não sei bem se é isso. Pode ser que ele tenha dito: "é feio", "é demodèe", "vai contra os bons costumes", ou algo assim. Só sei que a coisa pegou.
Eu, particularmente, não lembro ter usado a sombrinha uma única vez em toda a minha vida, juro por Nossa Senhora. Peguei-me pensando: eu sequer saberia onde poderia comprar semelhante raridade – talvez em algum bequinho escondido nos paralelepípedos do Alecrim; uma loja secreta, sem nome na fachada, onde se precisa proferir uma senha para entrar.
Diriam: a razão é óbvia, animal; não chove em Natal. Ao que eu retrucaria: amigo, você fala dos tempos pré-aquecimento global, vai lá em maio dar uma sacada. Chove, mas não se usa guarda-chuva. Nem capa. Nem saco de lixo. Nem nada. Natalense que é natalense se molha na chuva, não sei que porra é isso. Especulo que tenha a ver com nossa saudável característica de andarmos de carro para todo canto, mesmo se o todo canto significa a academia localizada a quinhentos metros de casa – meus irmãos que o digam. Mas, ainda assim, damos nossas curtas passadas sob o céu aberto fechado ("céu aberto" + fechado).
A peculiaridade passaria em branco nos devaneios sobre minha cidadezinha, não fosse a vinda deste caipira para a cidade grande. Eis que, de uma hora para outra, me vejo debaixo desta armação de varetas e panos, lutando contra centenas de trôpegos transeuntes, igualmente armados, por um mísero espaço livre nas calçadas da avenida famosa.
(A continuar...)
Um belo dia, alguém importante do meu estado, no uso das atribuições a si conferidas pela sociedade, instituiu: é proibido o uso de guarda-chuva no território potiguar. Pensei muito antes de escrever a palavra "proibido"; na verdade, não sei bem se é isso. Pode ser que ele tenha dito: "é feio", "é demodèe", "vai contra os bons costumes", ou algo assim. Só sei que a coisa pegou.
Eu, particularmente, não lembro ter usado a sombrinha uma única vez em toda a minha vida, juro por Nossa Senhora. Peguei-me pensando: eu sequer saberia onde poderia comprar semelhante raridade – talvez em algum bequinho escondido nos paralelepípedos do Alecrim; uma loja secreta, sem nome na fachada, onde se precisa proferir uma senha para entrar.
Diriam: a razão é óbvia, animal; não chove em Natal. Ao que eu retrucaria: amigo, você fala dos tempos pré-aquecimento global, vai lá em maio dar uma sacada. Chove, mas não se usa guarda-chuva. Nem capa. Nem saco de lixo. Nem nada. Natalense que é natalense se molha na chuva, não sei que porra é isso. Especulo que tenha a ver com nossa saudável característica de andarmos de carro para todo canto, mesmo se o todo canto significa a academia localizada a quinhentos metros de casa – meus irmãos que o digam. Mas, ainda assim, damos nossas curtas passadas sob o céu aberto fechado ("céu aberto" + fechado).
A peculiaridade passaria em branco nos devaneios sobre minha cidadezinha, não fosse a vinda deste caipira para a cidade grande. Eis que, de uma hora para outra, me vejo debaixo desta armação de varetas e panos, lutando contra centenas de trôpegos transeuntes, igualmente armados, por um mísero espaço livre nas calçadas da avenida famosa.
(A continuar...)
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Narizinho de palhaço
Balanceando aqui no leme o prumo que o bloguinho vai tomando, nem tão lírico, nem tão cru, os dois juntos, ou nada disso, endireito por um dos assuntos que naturalmente chegam aos nossos ouvidos nestas erráticas e insensíveis segundas-feiras pós-eleições. Escapulo bravamente de toda a enxurrada televisiva – já que sobrevivo saudavelmente sem precisar saber que seiscentas e treze urnas tiveram que ser substituídas ao longo do território nacional –, mas acabo invariavelmente lendo uma ruma de patacoada que me aperreia o juízo.
O que fez Sua Excelência Deputado Francisco Everardo Oliveira Silva na vida das pessoas para que agora merecesse o posto de cidadão mais odiado do Brasil? Por que esta nova algazarra generalizada em virtude da eleição de um honesto trabalhador, ainda mais engraçadíssimo? Que escândalo é esse que levantou vozes tuiteiras que sempre se mantiveram caladas quando o assunto era política? Vou me ater a um só ponto que considero importante.
Que tem alguma coisinha errada neste nosso capenga sistema eleitoral, ah isso tem. Ai de mim adentrar nos meandros deste lamaçal todo, mas só de soslaio: a indústria do voto, que incrível, não nasceu com Tiririca. Vez por outra, aliás, me pego comparando o nosso querido palhaço cearense com uns ilustres engravatados por aí, também com passaporte carimbado para Brasília. Óbvio que nenhum do Rio Grande do Norte, estado vanguardista na decência cívica. Hmm, a comparação – não sei viu? Os quatro patinhos na lagoa ganhariam possivelmente mais uma dedada.
O meu e o teu voto não são melhores que o voto de ninguém. Temos a pedante mania de nos acharmos OS esclarecidos, OS instruídos, OS sabidões, e os outros, um bando de iletrados ignorantes, que vendem sua cidadania em troca de saco de farinha. Pois veja, eu nasci na mesmíssima casa que minha amada irmã, me alimentei dos mesmos camarõeszinhos que nos foram ofertados, idem para educação e tudo o mais. Resultado: todos os nossos votos foram diferentes, todos. Eu estou certo ou ela? Ou quem optou por escolher alguém humilde e honesto, parecido com ele, para fazer valer seus interesses (ah não, a pobrada não tem instrução pra escolher seus preferidos). O outro lá, banqueiro mascarado, porém sem peruca, é quem vai olhar pelos migrantes nordestinos, né? Pff.
Que se faça então o que minha irmãzinha sugeriu: um teste de proficiência em espírito público (para ela, a palavra era "gestão"). Senhores, não estou sendo hipócrita ou dissimulado: eu não sei quem passaria. Possivelmente ninguém. Só que não venha então crucificar o tal do Francisco Everardo. Pior foi o teu amigo, que votou naquele lá que tu conheces: o Mauricinho Machado (se não lembra, clique aqui), sabe? Será que é o Tiririca mesmo que não sabe ler? Ou o teu amigo, que não se lembra daquela denúncia que apareceu nos jornais?
Há uma total inversão de valores e há um mulambento processo eleitoral. A eleição de um palhaço é significativa para se perceber que as nossas casas políticas espalhadas pelo país transformaram-se verdadeiramente em circos armados. Só que antes de levantar da cadeira e querer empurrar o nosso protagonista para assistente do lançador de facas, vale a pena prestar atenção aos gatunos e bem vestidos malabaristas, antes que o globo fique apertado demais para podermos rodar.
O que fez Sua Excelência Deputado Francisco Everardo Oliveira Silva na vida das pessoas para que agora merecesse o posto de cidadão mais odiado do Brasil? Por que esta nova algazarra generalizada em virtude da eleição de um honesto trabalhador, ainda mais engraçadíssimo? Que escândalo é esse que levantou vozes tuiteiras que sempre se mantiveram caladas quando o assunto era política? Vou me ater a um só ponto que considero importante.
Que tem alguma coisinha errada neste nosso capenga sistema eleitoral, ah isso tem. Ai de mim adentrar nos meandros deste lamaçal todo, mas só de soslaio: a indústria do voto, que incrível, não nasceu com Tiririca. Vez por outra, aliás, me pego comparando o nosso querido palhaço cearense com uns ilustres engravatados por aí, também com passaporte carimbado para Brasília. Óbvio que nenhum do Rio Grande do Norte, estado vanguardista na decência cívica. Hmm, a comparação – não sei viu? Os quatro patinhos na lagoa ganhariam possivelmente mais uma dedada.
O meu e o teu voto não são melhores que o voto de ninguém. Temos a pedante mania de nos acharmos OS esclarecidos, OS instruídos, OS sabidões, e os outros, um bando de iletrados ignorantes, que vendem sua cidadania em troca de saco de farinha. Pois veja, eu nasci na mesmíssima casa que minha amada irmã, me alimentei dos mesmos camarõeszinhos que nos foram ofertados, idem para educação e tudo o mais. Resultado: todos os nossos votos foram diferentes, todos. Eu estou certo ou ela? Ou quem optou por escolher alguém humilde e honesto, parecido com ele, para fazer valer seus interesses (ah não, a pobrada não tem instrução pra escolher seus preferidos). O outro lá, banqueiro mascarado, porém sem peruca, é quem vai olhar pelos migrantes nordestinos, né? Pff.
Que se faça então o que minha irmãzinha sugeriu: um teste de proficiência em espírito público (para ela, a palavra era "gestão"). Senhores, não estou sendo hipócrita ou dissimulado: eu não sei quem passaria. Possivelmente ninguém. Só que não venha então crucificar o tal do Francisco Everardo. Pior foi o teu amigo, que votou naquele lá que tu conheces: o Mauricinho Machado (se não lembra, clique aqui), sabe? Será que é o Tiririca mesmo que não sabe ler? Ou o teu amigo, que não se lembra daquela denúncia que apareceu nos jornais?
Há uma total inversão de valores e há um mulambento processo eleitoral. A eleição de um palhaço é significativa para se perceber que as nossas casas políticas espalhadas pelo país transformaram-se verdadeiramente em circos armados. Só que antes de levantar da cadeira e querer empurrar o nosso protagonista para assistente do lançador de facas, vale a pena prestar atenção aos gatunos e bem vestidos malabaristas, antes que o globo fique apertado demais para podermos rodar.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Sera toujours à vos côtés (ou algo assim)
Era bom quando ainda podia ouvir tua voz ao meu ouvido. Sei que às vezes pedia para calares tua matraca de doida desvairada, mas no fundo, no fundo, eu gostava. Reclamava, acho, só para te fazer rir das minhas rabugentices sem motivo. Só que aí, ao invés da boca descontrolada, tu encarnavas uma gargalhada alta, meu Deus, muito alta. Tua gargalhada era meio estranha, era composta de gritos. O primeiro assustava quem passava perto de onde estávamos, lá na praia. Depois ia diminuindo, acalmando.
Estendíamos a canga de desenhos psicodélicos na areia, cavando buraquinhos nas quatro pontas para que o vento não levasse. Eu segurava de um lado, tu do outro, e brincávamos, antes de enfiar, de alguma coisa meio sem sentido, balançando o pano para cá e para lá. Talvez tu não tenhas reparado, mas eu deixava o lado a favor do vento para ti – para que não te enchesse de areia quando me mexesse.
Deitávamos. Ligávamos teu sonzinho, eu com o fone na orelha direita, tu na esquerda. Era bem provável que tu viesses com um samba estranho que ouviu nos bares estranhos que tu ias com tua galera estranha, mas eu me adiantava. Mandava um Los Hermanos baixinho, começando com De onde vem a calma, cujo primeiro acorde, bem de supetão, elevava nossas cabeças para algum ponto estratégica e perfeitamente situado no meião da mesosfera, de onde estaríamos a salvo de todos os urubus e aviões a jato da redondeza, e de onde poderíamos assistir, com os dedos mindinhos dos pés elevados sobre seus vizinhos, ao majestoso e único pôr-do-sol que se sucedia ali embaixo, aos pés do Morro do Careca.
Eu, me agoniando todo por não encontrar uma posição inofensiva às minhas costas, procurava um galhinho enterrado na areia e punha-me a desenhar nomes engraçados e pornografias. Pensava em começar a te contar uma história mirabolante que me ocorreu no dia anterior, mas ficava com preguiça e deixava para lá. Não havia nada que eu pudesse contar que já não soubesses. Teu monólogo plainava em uma das dimensões paralelas que eu requisitava para a hora e era tragado pelo barulho do mar.
Sei que a tarde ia embora naquele silêncio dos teus gritinhos e naquela paz que nem as formosas sequóias-gigantes do norte californiano poderiam sequer sonhar. Naquele nosso calhambeque velho, comprado a troco de gelo nos ombros, nós embarcávamos no mundo kerouacquiano da mais verdadeira amizade existente na Terra.
Estendíamos a canga de desenhos psicodélicos na areia, cavando buraquinhos nas quatro pontas para que o vento não levasse. Eu segurava de um lado, tu do outro, e brincávamos, antes de enfiar, de alguma coisa meio sem sentido, balançando o pano para cá e para lá. Talvez tu não tenhas reparado, mas eu deixava o lado a favor do vento para ti – para que não te enchesse de areia quando me mexesse.
Deitávamos. Ligávamos teu sonzinho, eu com o fone na orelha direita, tu na esquerda. Era bem provável que tu viesses com um samba estranho que ouviu nos bares estranhos que tu ias com tua galera estranha, mas eu me adiantava. Mandava um Los Hermanos baixinho, começando com De onde vem a calma, cujo primeiro acorde, bem de supetão, elevava nossas cabeças para algum ponto estratégica e perfeitamente situado no meião da mesosfera, de onde estaríamos a salvo de todos os urubus e aviões a jato da redondeza, e de onde poderíamos assistir, com os dedos mindinhos dos pés elevados sobre seus vizinhos, ao majestoso e único pôr-do-sol que se sucedia ali embaixo, aos pés do Morro do Careca.
Eu, me agoniando todo por não encontrar uma posição inofensiva às minhas costas, procurava um galhinho enterrado na areia e punha-me a desenhar nomes engraçados e pornografias. Pensava em começar a te contar uma história mirabolante que me ocorreu no dia anterior, mas ficava com preguiça e deixava para lá. Não havia nada que eu pudesse contar que já não soubesses. Teu monólogo plainava em uma das dimensões paralelas que eu requisitava para a hora e era tragado pelo barulho do mar.
Sei que a tarde ia embora naquele silêncio dos teus gritinhos e naquela paz que nem as formosas sequóias-gigantes do norte californiano poderiam sequer sonhar. Naquele nosso calhambeque velho, comprado a troco de gelo nos ombros, nós embarcávamos no mundo kerouacquiano da mais verdadeira amizade existente na Terra.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Ideologia de verão
A cada dois anos eles surgem. Quem eles são (eles mesmo, não a sua estirpe), na verdade, não interessa muito. O que eles fazem, pior ainda. São quase sempre invisíveis cidadãos brasileiros, que incorporam, de tempos em tempos, um novo significado à sua estimada vida. São os pseudo-entendedores-de-política, raça chata de doer.
Durante os ... (deixa eu multiplicar aqui – 365 vezes 2, descontando uns dois meses, quando efetivamente começa a campanha, hmm), durante uns setecentos dias, mais ou menos, são pessoas que pouco, ou quase nada, tocam no assunto política. Não sabem, nem de longe, o que está acontecendo lá por Brasília ou pelo seu Estado. O-d-e-i-a-m esse tipo de discussão em mesa de bar. Para ter o que falar, tiram sarro de Chávez, sem bem saber por que (é um ditador, basta), e ridicularizam o presidente alcoólatra que têm.
Mas eis que, como inflamadas abelhinhas barulhentas, elas surgem no meio social. As plataformas digitais dão o primeiro alerta de chegada. O antigo nickname "Mauricinho Machado" vira agora "Mauricinho Machado – Fulano das Tapioca 17111, Pelo povo!". As fotos do Orkut ganham tarjetas brilhantes com nome e número dos preferidos. Mas é no Twitter, maldito Twitter, que eles se superam: transformam-se nos reis dos RT's. Tudo vale: "Fulano das Tapioca visitou hoje a Creche Estamos com Fome... À vitória, meu deputado!"; "Pesquisa Encomendamostudo mostra: Tapioquinha estaria na Assembleia hoje!".
A sua ideologia política alcança à moda (não tem quem faça Maria Joaquina aparecer nos cantos com blusa de outra cor que não seja azul; vermelho, jamaaais). A facada final, a derradeira cartada, símbolo máximo da devoção irrestrita ao ídolo-candidato é linda: nossos amigos, em ato de incrível adoração, entregam a fachada valiosa de seu querido automóvel! Passeiam pela cidade em seu alegórico possante, distribuindo buzinadas fraternas e sorrisos celestiais.
Bem pensei em parar por aqui. Deixaria margens para discussões. O leitor otimista certamente iria ponderar sobre a riqueza de nossa democracia, a maravilha que é a participação popular na defesa do interesse público. Veja só que beleza, calorosos partidários indo às ruas, faixas nas cabeças, lutando a favor das causas pelas quais seus peitos juvenis pulsam sem parar. Infelizmente, não dá.
Mauricinho Machado, tive que apurar, não é outro senão o sobrinho-neto de Fulano das Tapioca. Sua construtora, de uma hora para outra, andou milagrosamente conseguindo uns servicinhos junto ao Governo, e é bom que a mamata não cesse. Maria Joaquina, coitada, tem que deixar a roupa vermelha em casa, mas é por um bom motivo. Se Jorginho, seu cunhado, ganhar as eleições, vai poder permanecer no cargo lá da secretaria, onde aparece vez por outra.
Eles seguem, inabaláveis na nova causa de suas vidas. Decoraram três números que ilustram toda a magnitude do seu idolatrado, e mais três que despencam a idoneidade do candidato adversário. Se encontram alguém que conteste o que dizem, resmungam e replicam dizendo que ele está louco, não sabe nada de política. Assim aguardam o fim da peleja, o doce sabor da vitória. Sorrirão triunfantes com o sucesso, tirarão o adesivo ridículo de seus carros e retornarão a mesquinhez de suas vidas invisíveis.
Durante os ... (deixa eu multiplicar aqui – 365 vezes 2, descontando uns dois meses, quando efetivamente começa a campanha, hmm), durante uns setecentos dias, mais ou menos, são pessoas que pouco, ou quase nada, tocam no assunto política. Não sabem, nem de longe, o que está acontecendo lá por Brasília ou pelo seu Estado. O-d-e-i-a-m esse tipo de discussão em mesa de bar. Para ter o que falar, tiram sarro de Chávez, sem bem saber por que (é um ditador, basta), e ridicularizam o presidente alcoólatra que têm.
Mas eis que, como inflamadas abelhinhas barulhentas, elas surgem no meio social. As plataformas digitais dão o primeiro alerta de chegada. O antigo nickname "Mauricinho Machado" vira agora "Mauricinho Machado – Fulano das Tapioca 17111, Pelo povo!". As fotos do Orkut ganham tarjetas brilhantes com nome e número dos preferidos. Mas é no Twitter, maldito Twitter, que eles se superam: transformam-se nos reis dos RT's. Tudo vale: "Fulano das Tapioca visitou hoje a Creche Estamos com Fome... À vitória, meu deputado!"; "Pesquisa Encomendamostudo mostra: Tapioquinha estaria na Assembleia hoje!".
A sua ideologia política alcança à moda (não tem quem faça Maria Joaquina aparecer nos cantos com blusa de outra cor que não seja azul; vermelho, jamaaais). A facada final, a derradeira cartada, símbolo máximo da devoção irrestrita ao ídolo-candidato é linda: nossos amigos, em ato de incrível adoração, entregam a fachada valiosa de seu querido automóvel! Passeiam pela cidade em seu alegórico possante, distribuindo buzinadas fraternas e sorrisos celestiais.
Bem pensei em parar por aqui. Deixaria margens para discussões. O leitor otimista certamente iria ponderar sobre a riqueza de nossa democracia, a maravilha que é a participação popular na defesa do interesse público. Veja só que beleza, calorosos partidários indo às ruas, faixas nas cabeças, lutando a favor das causas pelas quais seus peitos juvenis pulsam sem parar. Infelizmente, não dá.
Mauricinho Machado, tive que apurar, não é outro senão o sobrinho-neto de Fulano das Tapioca. Sua construtora, de uma hora para outra, andou milagrosamente conseguindo uns servicinhos junto ao Governo, e é bom que a mamata não cesse. Maria Joaquina, coitada, tem que deixar a roupa vermelha em casa, mas é por um bom motivo. Se Jorginho, seu cunhado, ganhar as eleições, vai poder permanecer no cargo lá da secretaria, onde aparece vez por outra.
Eles seguem, inabaláveis na nova causa de suas vidas. Decoraram três números que ilustram toda a magnitude do seu idolatrado, e mais três que despencam a idoneidade do candidato adversário. Se encontram alguém que conteste o que dizem, resmungam e replicam dizendo que ele está louco, não sabe nada de política. Assim aguardam o fim da peleja, o doce sabor da vitória. Sorrirão triunfantes com o sucesso, tirarão o adesivo ridículo de seus carros e retornarão a mesquinhez de suas vidas invisíveis.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Illusio
Seu corpo todo tremeu. Os olhos pararam de ver, apenas miraram o nada; as unhas cravaram-se no peito do outro, arrancando farpas de couro suado; o grito que crescia, ritmado na gravidade nua, rasgou-se finalmente no quarto, ecoando nos segundos de secreção e paz.
Desfaleceu-se. Tombou a cabeça no braço dele, erguendo maciamente seu seio direito. Por minutos, nada disse. Acompanhando o compasso, subia e descia de acordo com o ar que ele puxava.
- Você vai?
- Tu sabes que não posso ficar.
Passou o braço e apertou o rosto contra o peito a sua frente. Ele sentiu a lágrima quente e silenciosa escorrer sobre suas costelas.
- Você promete que volta logo?
- Te jurei nunca prometer algo.
- Nem desta vez?
- Meu amor, posso sofrer com a solidão, posso esgoelar-me com a saudade, posso te perder. Prometer que amanhã te arrancarei aos beijos de tua casa e te levarei comigo ao meu lado te fará com que hoje sonhes não mais com minha presença, mas com a lembrança do tempo em que me ver era o que mais importava em tua vida. Na minha ausência, tu rememoras com paixão minhas virtudes e vícios, ao passo que em minha inútil companhia, teus anseios não perdoarão a rotina encardida. Tu sabes que volto, e sabes que voltando, te procurarei. Mas não sou digno de te afiançar minha palavra. Serei para sempre marinheiro, e serás, para sempre, vida.
Desfaleceu-se. Tombou a cabeça no braço dele, erguendo maciamente seu seio direito. Por minutos, nada disse. Acompanhando o compasso, subia e descia de acordo com o ar que ele puxava.
- Você vai?
- Tu sabes que não posso ficar.
Passou o braço e apertou o rosto contra o peito a sua frente. Ele sentiu a lágrima quente e silenciosa escorrer sobre suas costelas.
- Você promete que volta logo?
- Te jurei nunca prometer algo.
- Nem desta vez?
- Meu amor, posso sofrer com a solidão, posso esgoelar-me com a saudade, posso te perder. Prometer que amanhã te arrancarei aos beijos de tua casa e te levarei comigo ao meu lado te fará com que hoje sonhes não mais com minha presença, mas com a lembrança do tempo em que me ver era o que mais importava em tua vida. Na minha ausência, tu rememoras com paixão minhas virtudes e vícios, ao passo que em minha inútil companhia, teus anseios não perdoarão a rotina encardida. Tu sabes que volto, e sabes que voltando, te procurarei. Mas não sou digno de te afiançar minha palavra. Serei para sempre marinheiro, e serás, para sempre, vida.
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