sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um ano

A porta range depois de uma rajada de vento, e uma expectativa tola e esquecida me percorre a espinha. Espero de cá da cama o sutil remexido das chaves ao girar da tranca, espero os passos tão próprios, tão lentos e ritmados, entrando casa adentro, espero o vulto que passa no corredor a caminho de seu quarto.

Disfarço o ato falho e não me permito pensar a respeito. Iria lembrar do “boa noite, filhão” naquela voz rouca e do cheiro impregnado de cigarrilha de baunilha. Iria lembrar de seu passar tímido, cabeça abaixada, matutando - seu mundo trezentos e cinquenta mil anos à frente do resto da humanidade -, e da graça de vê-lo repetir todo dia a mesma coisa, sempre.

Como dizia, melhor não pensar muito.  

Ligo a TV por instinto e vejo um William Bonner que não recebe resposta quando se despede. Desligo.

Toca o telefone fixo de casa. É da Veja, querem falar com o senhor Fernando, oferecer uma superpromoção para retomar a assinatura. Malditos, à merda! Senhor Fernando está viajando, amigo, mas mandou avisar que virou petista.

Que fazer com essas calças e sapatos, meu Deus...  

Lembro que estou com fome e me levanto. Passo pela sala parcialmente desmontada e só então me dou conta do tamanho que ela está. Sem o armário, sofás e toda aquele aparato de pinguins, urús, lampiões, roda de carroça, tampa de açougueiro, coruja, tamboretes, pia de médico, baús e outros, acho que ela ganhou uns tantos metros.

Está tudo bem maior por aqui.

Agora dei conta do sumiço das plantas. Alguém tirou e esqueceu de me avisar. Ou me avisou e eu esqueci, o que é mais provável. A bem da verdade, melhor assim: fatalmente esqueceria de regar por semanas, e elas morreriam, coitadas, totalmente atônitas, sem entender onde foi parar todo aquele carinho de antigamente que recebiam.

Na cozinha, esquento no micro-ondas a comida que Ivone deixou na geladeira e me sento à mesa, sozinho. Nada de sopa de legumes por hoje. Nada de conversa por hoje. A porta rangeu só pra me cutucar.


Há um ano perdi aqueles vinte, trinta minutos, em que meu ídolo me ensinava o que era a vida.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O cochicho das coisas


Às vezes, geralmente tarde da noite, naquele milésimo de segundo que antecede o sono, ouve-se um murmuriozinho suave, talvez mesmo inaudível, talvez mesmo inexistente. É som que só ouvido com dom especial, como o dos lelés ou variantes, é capaz de pegar, pois que exige muito mais que audição. É o cochicho das coisas.

As coisas, via de regra, coisas que são, gostam de zuar durante o dia. Fingem que só podem emitir som quando algum outro objeto, movido por uma força estranha, as compele a ruir. Apoiando-se nas lições de ciências das crianças, que insistem com a baboseira de "inanimadas", aproveitam para barulhar quando dá na telha. Preferem, no entanto, esperar a passagem do gato perto de si, ou do soprinho de vento, para poder extravasar. Melhor assim, senão haveria de ter muita gente desconfiada por aí.

À noite, elas geralmente calam. Imagino que é por medo do silêncio - ficaria muito na cara uma bocejada do livro, entediado com o olhar blasé do leitor; ou a discussão do fogão com o micro-ondas, bem na hora que o pai fosse pegar água de madrugada na cozinha. O bebedor, que já gosta de umas golfadas potáveis, e as cadeiras, que não suportam ficar paradas, correriam sério risco. Isso para não falar nos matraquentos cd players (in memorian), que fingem se desintegrar na última gaveta do armário da sala.

O problema é que todo mundo sabe que quando se tem algo importante para falar fica difícil guardar. As coisas, então, são boas em ficar se fingindo de mortas até que as pessoas caiam no sono. É aí que embalam seus interessantíssimos cochichos.

Um cronópio, cara que parece que vi perambulando por aí, certa vez me contou a epopeia de seu ventilador de teto. Já não se podiam chamar de lamentos os choros que fazia o coitado na sua eterna sina de rodar. Era tanta amargura junta, contou-me, ou parece, o cronópio, que a tal coisa já soltava uns "féladaputa", talvez inaudível, talvez inexistente, entre seu vrumvrumvrum já tradicional e por nós aceitável.

Outro figura que conheço, sempre com seu cigarrinho de palha na mão, confessou para os mais próximos que sua máquina de lavar emite umas cantorias aterrorizadoras quando ligada à noite no módulo turbo. Jurou ele, de pé junto, que o canto, ainda que baixinho, é o mesmíssimo que fazia a preta velha de sua casa, há tantos anos falecida, quando era hora de trabalhar no tanque.

Há relatos de outros casos, uns clássicos, como o das espalhafatosas televisões que estão sempre querendo aparecer; outros mais contemporâneos, como o do Iphone de um hipster abaitolado, cujo Song Pop tocava músicas mesmo quando desligado... Acho que as coisas podem sentir.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Espelho embaçado

A menina da faxina veio dias depois de tua saída. Mandei que limpasse o espelho, tirasse com multiuso aquelas palavras escritas em batom vermelho, que teimavam em me encarar.

Do que escreveste, lembro, o que doía não era o querer estar sempre perto, o te amo demais ou o infelizmente não deu.

A dor era pelo apelido meigo, que deixaste lá em cima, no canto esquerdo, seguido de uma vírgula desenhadinha.

A dor era por conceber que as frases rabiscadas podem muito bem reaparecer em um batom lilás ou noutro espelho doutro banheiro doutra cidade. Mas a forma como tu me chamava era só tua.

Sem o vocativo carinhoso, o texto seria só repetição de palavras que algum desafortunado certamente já usou. Com ele, o texto era você.

Mandei que limpasse, pois; tirasse dali o que restava de tua presença, tomando o mesmo destino do porta-retratos e do ursinho de pelúcia encardido. Lembra-se da poesia, que fiz sobre o choro ao engavetar fotos?

É o que tenho por saudade.

Mas o adeus que tentei te dar, ao expungir com esfregão as palavras do banheiro, foi em vão. Talvez o multiuso fosse pouco, talvez a altura fosse muita, mas a menina deve ter falhado no seu ofício.

Porque quando embaça o espelho, após um banho quente, o maldito do apelido torna a aparecer – só ele, lá em cima, impassível, me fitando com teus olhos apertados.

Delineada no vapor do banheiro, ressurgindo de quando em quando só para aturdir minhas lembranças, você se alojou para a eternidade no meu próprio reflexo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cacos

Quando retornei o rosto e reparei, ela já não estava mais lá.

Quer dizer, estar ela estava, só que não mais a mulher que há dois segundos me havia fustigado o braço. Melhor: era ela, só que voltada no tempo. A mesma face que pouco antes vertia uma incontrolável fúria imediatamente acalmou. Apareceu uma menina, dois ou oito anos mais moça (como vou saber), que por pouco não reconhecia.

Os olhos, de um vermelho agressivo, descontrolado, apertaram-se num acalento de santa. Mesmíssima boca que logo atrás havia proferido os mais violentos insultos agora exibia a doçura de um sorriso apaixonado. Não que eu julgue estivesse apaixonado, mas porque o semblante próprio dizia, por mais mudo que um semblante seja. Na verdade, som algum havia naquela hora.

As suas unhas, ainda que permanecessem encravadas na minha pele, não mais machucavam; ou talvez machucassem, não sei, mas ali o destempero já fazia certo sentido. Porque tudo ali já fazia sentido: o nosso tempo, orgasmo, o nosso nós dois. Não mais era o projeto fracassado de uma tentativa de amor, era o próprio amor, transvestido de passado.

A menina, imóvel e calada, admitiu que ali morríamos. Que morríamos no passado de ternura que por certo já parecia oco. Que não tinha importância já não mais lembrarmos – ele existiu, em algum travesseiro da vida, em algum pum engraçado, ou mesmo, em uma caixa de papelão azul repleta de cartinhas, engavetada atrás dos mais desprezíveis objetos.

Antes que conseguisse me endireitar, antes mesmo que conseguisse pensar em me endireitar, a aparição esvaeceu. Dissipou-se numa poeira de cacos. Uma nuvem fina e gelada que voou para bem longe.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tudo passa... bem, quase tudo

Minha mãe, muito provavelmente, coitada, não deve ter tido tempo ou cabeça para isso. Devia estar toda inchada, ainda recuperando-se da bem sucedida incisão transversal em seu ventre, e atarefadíssima, cuidando para que seu rebento sucedesse nas sucções. Devia estar alegre demais para tanto, pelo menos é o que espero. Painho, igualmente, não deve ter se interessado – imagino que estivesse nervoso ante a chegada de mais uma boca para alimentar, e um pouco alterado, desgostoso de ver surgir um bacuri bem mais feio do que esperava. O fato é que nenhum deles deve ter lido o jornal naquele longínquo 31 de março de 1985.

Se tivessem lido, é bem verdade, não teria feito qualquer diferença. O homem não chegara a Marte nesse dia, nenhum papa morrera, nada de terremoto ou desastre nuclear. Nada de novo, como diz o outro, apenas o nascimento pós-maturo deste que vos escreve – à época, um tanto cabeludo e com unhas grandes, segundo consta. Pouco mais de vinte e seis anos depois, o filho de dona Vânia não precisa lhe pedir que vasculhe a memória a fim de saciar sua curiosidade adolescente (?); não, a tecnologia ajuda.

Há algum tempo, a Folha disponibilizou todo o seu acervo na Internet, desde as primeiras publicações, em 1921. E como é grande a vaidade humana, fui lá diretamente à data em que nasci, talvez com aquela ingênua ilusão de enxergar "Nasce o grande homem" estampado na primeira página. Não encontrei, droga. Mas foi interessante imaginar em que pé estava o mundo quando calhei de invadi-lo – o que, por uma tortuosa argumentação (que Deus me livre sobre ela debruçar agora), comprova inequivocamente que Ele não existe.

Vem ao acaso, apenas, saborear as notícias. Era edição de domingo, e o Brasil fervilhava politicamente. Tancredo estava morre, não morre – esta, sim, a manchete de capa. Em uma carta do leitor, o pedido emocionado: "Não nos deixe. O Brasil espera pelo senhor. O povo espera pelo senhor. O seu povo o espera e chora junto a sua dor. Não se vá agora, bravo mineiro".

A impressão era de haver uma enorme incerteza, um medo de que a "transição democrática" (expressão usada umas 394 vezes ao longo do jornal) fosse interrompida. E, de fato, havia enormes razões para tanto: os ministros das Forças Armadas, em "ordens-do-dia" publicadas na página 4, amistosamente saudavam os "camaradas" ou "comandados", dando vivas ao aniversário do "Movimento de 31 de março de 1964". Leitura interessantíssima.

Aqui e ali uma dica quanto à orientação política do jornal à época, mas não entremos neste mérito – apenas uma olhada no Editorial, intitulado "Greve Inoportuna". Personagem principal: o então líder de sindicato, Lula, que não só pleiteava benefícios salariais; "não estando excluído, por certo, o propósito de conseguir dividendos políticos através de uma eventual catalisação de anseios oposicionistas". A Folha continua: "Deve-se, no entanto – quando estão em jogo também os interesses maiores da preservação de um clima favorável à delicada transição política em curso [again] – fazer considerações sobre a oportunidade da escolha da greve como instrumento privilegiado de pressão trabalhista neste momento". Sem mais.

A sensação é de estar estudando história não por um livro didático, mas por caderno de campo - realidade em movimento. São várias as matérias curiosas, que antes pensava em trazer, mas desisto, vendo agora o tamanho do texto. Super emblemáticas as propagandas, de máquinas de costurar ao moderníssimo Atari (que acabei ganhando alguns anos depois). Engraçado, também, ver que era independência da Namíbia, país 'x' que por uma mirabolante coincidência, conheci de cabo a rabo. Vida que se passa, passado que se vai. Ou não. Da Sucursal de Brasília, outra notícia do dia: "Sarney discute segundo escalão do governo hoje". É.  Certas coisas não mudam.

terça-feira, 22 de março de 2011

Até que o ônibus parta, amanhã

Deita. Deixa o caso para mais tarde. É tarde. Dorme que logo mais é dia, e você sabe que amanheceres me deixam melancólico. Assume teu lado da cama. Calma, não, já disse, não falarei mais; eu precisava ir, sim; ela é minha mãe, ora; ai, não tem essa de ser mais importante; para, para, não, PARA. Para quê choro? Eu estou aqui. Tá, desculpa, fui grosso, mas é que já surgem os primeiros raios, olha lá. Amanhã já vem. Nem lembrará mais por que me veio gritar. Eu sei, eu sei, você sabe que, se eu pudesse, seriam suas todas as horas. Não senhora, volto rapidinho, conta tuas duas luas, que apareço. Não esqueço seu recado, fica tranquila. Dorme. A vida não dorme. Combinamos de nos encontrar nos sonhos, depois que o ônibus partir.

domingo, 13 de março de 2011

Abstinência

- Nem um textinho sequer? Nem aqueles mini-contos, que tão na moda?

- Nada, amor. Nem frase de efeito pra Twitter alheio sai. Travou tudo.

- Mas você ia tão bem. Quase um texto por semana, comentários elogiosos...

- Que nada. Era tudo uma grande bosta. Se você soubesse a vergonha que me dá olhar pr'aquelas velharias. Pior, acabo de escrever algo, releio, já me parece um rabisco feito por recém-nascido.

- Mas vai me dizer que não gerava boa repercussão?

- Balela. Quando descobrem que você deu pra escrever, até dão pitaco, como que acalentando: "pobre coitado, endoidou de vez... até que é gente boa, vou aqui dizer que tá bom".

- Rá.

- Mas não? Quem em sã consciência vai sujar seu nome, comentando mais de uma vez o site dos outros?

- No blog da Betty, elas comentam.

- ...

- Eu vi um monte de gente te elogiando, nos comentários.

- Um monte de anônimos?

- Ai, você tá chato.

- A propósito, tou começando a achar que você escreve os comentários anônimos. Metade você, metade mainha.

- Meu Deus, o pobre coitado endoidou de vez...

- Tá feito, parei. Vou deletar esta porcaria!

- Não seja tão cruel consigo mesmo. Você manda bem, só deve estar passando por uma fase sem inspiração.

- Você não entende. Nunca fui de acreditar naqueles profissionais da pena, que ganham baseados em produção. "Tem que ser uma crônica por semana, um conto por dia". Tem cabimento?

- Só que aí vem a onda da disciplina. Senta a bunda na cadeira e só sai quando tiver pronto.

- Minha linda, o texto precisa dormir. Ele desperta como pedra bruta, cheio de arestas, tomado por imperfeições. Pense no vinho, todo aquele processo da uva, fermentando, ou seja lá o que for. O texto precisa fermentar.

- Sei. Por que não tenta lá tuas poesias, por enquanto?

- Respeita, mulher. Tá insinuando o quê?

- An?

- Deixa pra lá. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

Encontrinho feminino pós-Blackberry e Iphone

Paty_Maya_ I'm at Pitanga Bar (Rua Ângelo Varela, 1033, Tirol, Natal, RN Brasil). http://4sq.com/dt293f

Juh_alves @Paty_maya_ Amigas reunidas é o que importa! #absolutcomredbull

MariiSouza @Paty_maya @Juh_alves ATOOOOOOOROOOON! KKK

Nahzinhaaa_ Liiiiiinnnndaaaaaaaaaas!!! http://twitpic.com/dk23ja

Juh_alves Aproveitando muuuito com minha amiga maravilhosa @Paty_maya que eu não via a um tempão

Nahzinhaaa_ @Juh_alves Fiquei com ciúmes agora kkkkk Só tava com saudade de @paty_maya é? Kkkk

Juh_alves @Nahzinhaaa_ Aiii amiiiigaa, desculpaa! Você sabe que eu te amo de paixão, lindaaa.

MariiSouza Nada melhor do que uma saidinha com as amigas depois de 3 horas na academiaa. Ufaa, quase desmaio #projetoverão

Paty_maya @MariiSouza Tou no shake todo dia friend, tem que secar pra esse verão kkkkk

MariiSouza Nossa, essa sirigueloska veio forte demais. Animar que a night prometeee kkk, né @Juh_alves?

Nahzinhaaa_ RT @HugoGloss BOA NOITE vc q tá preocupado c/ sua solteirice. Fifi, enquanto houver álcool, solteirice jamais será problema

Juh_alves kkkkkkkkk Só tenho amiga loucaaaa #socoooorro

Paty_maya RT @Juh_alves kkkkkkkkk Só tenho amiga loucaaaa #socoooorro

MariiSouza kkkkkk RT @Juh_alves kkkkkkkkk Só tenho amiga loucaaaa #socoooorro

Paty_maya E hoje, qual a boa???

Juh_alves @Paty_maya Não vou mentir que queria minha Pacha de Ibiza #tipoNOW

Nahzinhaaa_ @Paty_maya Por mim tanto faz, desde que role Banga depois #nãovoupracasaQueroafter

MariiSouza ADOROOOOOO RT @Nahzinhaaa_ Por mim tanto faz, desde que role Banga depois #nãovoupracasaQueroafter

Juh_alves Cheers! http://yfrog.com/dsi34S 

Nahzinhaaa_ Tem gente ressucitando os falecidos aquii. Enterraaaaa esse povooo omi #roedeirafeelings

Paty_maya @Nahzinhaaa_ Coisinha lindaaa aquela peruca dela ... NOT kkkkkkkkkkkkk

Juh_alves Chama o IBAMAAAAAAA que a coisa tá feiaa

MariiSouza Vamos aprender a se valorizar, meu povo! Amor próprio é essencial! #ficaadica

Paty_maya Angra no Reveillon!!! Matriculada! Quem perdeu que contee Uhhuuu

Juh_alves @Paty_maya Separa o champa que eu vou com tudooo. Matriculada [2]! BAPHOOOO!

Nahzinhaaa_ Vou sim, quero sim, posso sim, POIS NINGUÉM MANDA EM MIM. Matriculada [3]! Vai levar falta @MariiSouza.

MariiSouza @Nahzinhaaa_ Aiii amiga, nem me fale. Se joga por mim. Podia ir, mas você sabe, família é tudo né?

Juh_alves @MariiSouza @Nahzinhaaa_ @Paty_maya Família e amigas VERDADEIRAS é tudo, né? #sinceridade

Paty_maya Falou e disse sis RT Juh_alves Família e amigas VERDADEIRAS é tudo, né? #sinceridade

Nahzinhaaa_ ASOLUTinha minha querida, por que desces tão rápido? kkkkkk http://twitpic.com/aO32h5 

MariiSouza Pitanga bombandooooo com as bests @Nahzinhaaa_ @Paty_maya e @Juh_alves

Paty_maya Eu amo as minhas amigas!!!!!!

Nahzinhaaa_ RT @Paty_maya Eu amo as minhas amigas!!!!!!

MariiSouza Almocinho amanhã pra continuar a fofoca, viu amigas? Precisamos acertar os detalhes desse tal de carnaval em Salvador #adoro

Juh_alves @MariiSouza ADOROOOOOOOOOOOOOO

Paty_maya Vai ser tudo! E fds tem Safadãoooo. Alô @mauricinhoMch, vai logo reservando nossa mesa no pé do palco viuuun?

Nahzinhaaa_ @Paty_maya kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk  

Juh_alves Altoooos papos com as friends @Nahzinhaaa_ @Paty_maya e @Juh_alves Amo muitooooooooooooo!

MariiSouza @Paty_maya @Juh_alves @Nahzinhaa Adorei a noite, AMIGAS. É sempre maravilhoso estar com vocês. Obrigado por existirem #amomuito


***


Agradecimento especial a @clarabezerra_, também conhecida como minha irmã, pela ajuda na elaboração do texto. Adooooooro! rs.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A desastrosa epopeia do cabaço de Riquelme

O assunto do cabaço de Riquelme virou pauta constante lá em casa. Chegava uma visita desprevenida, lá ia o salivante peludo em sua direção, precipitando seu imenso corpanzil sobre as pernas da desafortunada e iniciando suas obscenidades constrangedoras. Minha mãe não aguentou mais. Exigiu que arrumássemos uma cadela para que o maldito mamute pudesse descarregar sua púbere vivacidade. Após longa procura, conseguimos.

Mel chegaria no dia seguinte. Era fundamental criar uma atmosfera propícia ao romance, afinal é bem sabido que é a primeira impressão que fica. Deu-se início a mobilização para o embelezamento de Riquelme. O passo inicial, sabiamente capitulado por alguém como "descarrapatização", correu bem. Ele pareceu gostar, dando os tradicionais chutinhos quando tocávamos em alguma zona cocegarígena. Ao final, percebi um olhar meio nostálgico, como se ali estivesse se despedindo de bons e velhos amigos, que há meses compartilhavam de seu sangue.

O banho. Morando cinco bestas preguiçosas nesta residência, achamos por bem enviar o quadrúpede para cuidados profissionais. Gosto de pensar que sua higienização foi como um verdadeiro ritual de ofurô, acompanhado de suave música canina e velas com essência de tutano. Até consigo imaginar sua cara de satisfação, revirando os olhinhos enquanto escorria litros e mais litros de baba. Ele voltou todo cheio dos não me toques, trajando uma gravatinha colorida estilo pré-adolescente-"tou-na-moda".

Não é difícil supor que Riquelme estivesse já com aquilo pela cabeça. Segundo explicam os estudiosos, cada ano canino equivale a sete dos humanos. Utilizando nossa contagem, o pobre permanecia virgem quase aos trinta anos. Trinta anos! Deus sabe o que deve ter passado por sua cabeça quando Mel entrou pelo portão, lacinho cor-de-rosa na cabeça, andar de rechonchuda elegante, exalando talco e óvulos. Deve ter ficado louco.

Uma verdadeira plateia armou-se, por trás do vidro, para acompanhar o acontecimento. Após o cheira-cheira inicial, o jogo de sedução começou. Riquelme mostrou-se um autêntico gentledog, oferecendo o seu buraco na areia para o descanso da donzela. Só o tapete é que a impediu de usar, por certo querendo mostrar que também precisava de um espaço só para si. Passearam pelo jardim, rolaram pela grama, dividiram o balde d'água – a simbiose mágica, o amor. Quase.

Faltava o gran finale, a apoteose, o final fatality. Faltava a cópula e estariam todos, da minha mãe às visitas, da proprietária de Mel aos astros, estaríamos todos exultantes de felicidade, abraçando-nos em meio a estouros de champanhe e votos de boas festas. Mas não. Víamos o erguer das patas, que não revelavam mais que um peso sobre as costas da cachorra. Víamos os inócuos movimentos, sem qualquer propósito, a la comédia de besteirol americano. Víamos a face impaciente da bichinha, que, desapontada, começava a pensar que o problema era consigo. Víamos e, impotentes, não podíamos fazer nada. Riquelme não conseguiu.


Riquelme (a esq.) revira os olhos e faz carinho em Mel. Ele não conseguiu.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Escadinha do preconceito

Sinto muito, mas naquele planeta eu não piso meus jupiterianos pezinhos azuis. Por mim, tanto faz se seus habitantes esquentam a temperatura de seu chiqueiro e elevam seus ridículos mares. Para uma raça tão inferior, tão ignóbil, nada mais de se esperar além do seu auto-aniquilamento. Pois que se afoguem todos de mãos dadas, criaturas desprezíveis e que enojam nossa galáxia. Daqui do alto de um verdadeiro astro vialacteano – grande, pomposo e sublime –, verei com prazer a derrocada, mais do que na hora, desse ninho de urubus fétidos, que chamam Terra.

Ah, já ouvi, sim, falar de lá. Não é aquele país das bundas maravilhosas? Nossa, man, aquelas mulheres são quentes! Deve ser um tesão fazer sexo com elas no meio da selva, com os gorilas batendo os punhos no peito. Mas, vem cá, como é vocês conseguem se segurar naqueles cipós e se movimentar around? E outra, tem o lance dos canibais, né? Bem que podiam mandar a cambada de mexicanos para lá. Que ardam junto com todos aqueles barbudos terroristas, que querem destruir nossa grande pátria democrática. Pensando bem, acho melhor ficar aqui mesmo, sentadinho com meu Méqui, a salvo dos perigos desse resto de mundo.

É o que te digo... enquanto essa pobrada iletrada permanecer fazendo parte do nosso país, nós não temos jeito, mano! Nós que trampamos o ano inteiro, produzimos toda a riqueza da nação, temos que manter um bando de preguiçoso aproveitador? Esse povo não faz nada e ainda recebe bolsa-esmola do governo! O que é mais revoltante é que deixam o voto deles ter o mesmo valor que o meu. Não tem, mano! Eu trabalho! Eu tenho carro! Eu sou alfabetizado! Não posso ser comparado àqueles cabeças chatas do norte. Depois de invadirem nossa cidade, trazendo aquele sotaque patético, ainda querem escolher o presidente do Brasil? Pois se ouvir falarem um "ti", ao invés de "txi", vou meter lamparada na cara deles, para aprenderem a respeitar nossa elite!


***

Segundo o Aurélio, etnocentrismo é a "tendência do pensamento a considerar as categorias, normas e valores da própria sociedade ou cultura como parâmetro aplicável a todas as demais". O mundo não é Júpiter, a Terra não é os Estados Unidos, o Brasil não é o Sul-Sudeste. A diferença faz parte da vida. A diferença é a própria vida. Toda forma de preconceito é burra. Toda forma de preconceito esconde ignorância ou recalque.

domingo, 14 de novembro de 2010

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Lembro que te disse das minhas linhas. Que nunca lesses imaginando serem meus aqueles sentimentos. Que não encarnasses na pele feminina dos meus dedos, achando seres tu a mulher perdida, a mulher amada, a mulher cuspida. Recordo que penasses para aceitar, achavas por certo que assim me esquivo das responsabilidades do meu pensar.

Pois. Escrevo agora. Para ti. Ainda que o "ti" seja justamente a personagem sobre quem te proibi de levantar tais suspeitas.

É sensato pensar que hoje tu acharás tudo isso uma imensa tolice, um grande despropósito. Daquele tempo, imagino, só te resta a lembrança de uma criatura chacoalhada pela juventude. Que suava entusiasmado, gargalhava sem critério e clamava para que todas as pessoas estivessem naquele momento olhando o mundo com seus olhos esbugalhadamente felizes. Já faz tempo.

Calei, ali, quando podia ter dito algumas coisas que mudariam o prumo de toda minha vida.

A primeira, e certamente mais perturbadora, é que eu gostava de ti. A segunda, e que tenta explicar o que agora disse, é que eu tinha medo. Se tive medo pois gostei, ou gostei por causa do medo, eu realmente não sei. O que asseguro é que naqueles poucos segundos que antecediam tuas respostas, nas nossas conversas perdidas na madrugada, eu me pegava enfeitiçado; e se houvesse possibilidade de veres minha face, assustar-te-ias com um bobo sorriso de pré-adolescente que desafiaria o mais incrédulo dos filósofos da paixão.

Percebes que digo coisas fortes. Mas, por favor, não me culpes. Eu tive medo.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Papeado de carteiro

Havia alguma coisa de nobre no seu andar de carteiro. Não que o seu bom dia fosse assim mais de respeito que o do pessoal, ou que aprumasse com maior pompa os envelopes na portinhola. Na verdade, acho que não me engraçaria tão à toa por aquele tiquinho de gente, inda mais metido naquele apapagaiado terninho amarelazul. Mas era, bom que se diga, de feitura aprazível, nem pouco, nem muito, mas tudo nos conformes, conforme se diz.

Foi quando inventou de se chegar, na sua mansidão de beira de estrada. Por certo viu que as correspondências do Dr. Juarez não vieram aquela semana, pois que perguntou baixinho: o patrão viajou pros estrangeiro? Confesso que estranhei, cabra assim dando conta da rotineira do escritório. Mas, nem bem pensei, ele mandou outra: fôsse tu, pudesse escolher as férias da vida, como é que seria? Aí foi demais. Seu Entregador, não se chateia não, mas vê que a papelada tá pesada pro dia de hoje – foi o que eu disse. E de fato tava, num sabe? Mas foi mais de acanhamento. Queira ou não, eu ainda tava com Eliélton na época. E tudo se transcorreu sem maior novidade naquela sex... sim, era sexta.

Acontece que essas coisas de sentimento a gente não sabe como é que é, né mesmo? Não foi que no caminho da lotação, no meio daquele espremido de nhaca, eu não me peguei pensando nas férias que eu sonhava ter? Foi tanto de pensamento doido, imaginando o tal do dia perfeito, viajando, num sei quê mais, que quase que perdi o ponto. Acordei meio desconfiada, com vergonha dos outros estarem ouvindo minha imaginação. Lembro que o falecido ligou depois, avisando que a moto pifara, e que não apareceria lá em casa pra nosso filme de sempre. Nem reclamei, acredita? Só sei que naquela noite, já deitada, tive um sonho esquisito. Eu tava num avião, toda posuda, indo visitar as Europa, quando reparava que a portinha da cabine tava aberta; eu esfregava os olhos pra poder enxergar direito, até que pude reparar bem: quem pilotava a nave era o bendito do carteiro.

Se eu dissesse que foi fácil, a partir daí, eu tava mentindo, mulher. Dá umas gasturas escabrosa pensar em ter que trocar o certo pelo duvidoso, a papa de aveia pelo picolé de limão. É ruim, aperta as tripas, embrulha as ideias, desperta vontade de dar grito. Subia a ruela de carreira, só queria saber de ficar só, pramóde de aguardar uma graça que arrancasse aquela ruma de confusão do meu cocuruto.

Só que o troço foi ficando mais e mais grave. Não tivesse você com pressa pra se ir, eu contava da segunda-feira, quando o danado se chegou com outra pergunta, queria saber qual tinha sido a primeira coisa que eu tinha pensado naquela manhã, pode isso? Ou da terça, quando me dizia pra contar de qual lado da pasta de dentes eu começava apertando, se do finzinho ou da boca. Não sei bem da onde ele tirava aquelas invenção. Pra mim era coisa de gente desmiolada, mas, biruta ou não, na quinta nem na sexta ele foi, e eu dei falta daqueles nossos cinco minutinhos de lero-lero.

Quando dei por mim, já não havia mais Eliélton, papa de aveia ou certeza na minha vida. Entreguei tudo pra Deus, sabe? Aquele carteirinho já era a salvação do meu dia, a única coisa que realmente importava. Vinha sempre com as histórias que via nos becos, um tal de um gato malhado que ficou preso no bueiro, um molecote que tinha as canela preta, pois que não conseguia esticar o braço pra lavar com sabão, a cantiga de um caracol que perdeu a gosma e não pôde mais andar... Eu riiiiiia, mulher. Hoje arrepito o que ele me disse no dia que o porta-cartas se rasgou debaixo de chuva: tudo é muito simples, tudo é muito simples; a gente é que cria os problema.


***

Em tempo, o texto sobre a arte de portar um guarda-chuva acabou ficando mesmo sem Parte Final. A intenção não era dividí-lo, mas o pobre do blogueiro adormeceu e não conseguiu acabar tudo no mesmo dia. Entraria agora a parte que falava propriamente do congestionamento de sombrinhas, na Paulista. Só que a ideia já não me parece mais tão interessante de se escrever. Se um dia sair, damos um jeito de consertar a bagunça.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Da incrível arte de manusear um guarda-chuva na Avenida Paulista, às seis da tarde - parte I

O leitor paulista não vai saber o propósito do texto; vai, por certo, achar sem graça, forçado. Mas sei que lá pelas nossas bandas nordestinas, ao menos um exemplar da espécie Homo Galadus vai entender direitinho o que eu estou falando.

Um belo dia, alguém importante do meu estado, no uso das atribuições a si conferidas pela sociedade, instituiu: é proibido o uso de guarda-chuva no território potiguar. Pensei muito antes de escrever a palavra "proibido"; na verdade, não sei bem se é isso. Pode ser que ele tenha dito: "é feio", "é demodèe", "vai contra os bons costumes", ou algo assim. Só sei que a coisa pegou.

Eu, particularmente, não lembro ter usado a sombrinha uma única vez em toda a minha vida, juro por Nossa Senhora. Peguei-me pensando: eu sequer saberia onde poderia comprar semelhante raridade – talvez em algum bequinho escondido nos paralelepípedos do Alecrim; uma loja secreta, sem nome na fachada, onde se precisa proferir uma senha para entrar.

Diriam: a razão é óbvia, animal; não chove em Natal. Ao que eu retrucaria: amigo, você fala dos tempos pré-aquecimento global, vai lá em maio dar uma sacada. Chove, mas não se usa guarda-chuva. Nem capa. Nem saco de lixo. Nem nada. Natalense que é natalense se molha na chuva, não sei que porra é isso. Especulo que tenha a ver com nossa saudável característica de andarmos de carro para todo canto, mesmo se o todo canto significa a academia localizada a quinhentos metros de casa – meus irmãos que o digam. Mas, ainda assim, damos nossas curtas passadas sob o céu aberto fechado ("céu aberto" + fechado).

A peculiaridade passaria em branco nos devaneios sobre minha cidadezinha, não fosse a vinda deste caipira para a cidade grande. Eis que, de uma hora para outra, me vejo debaixo desta armação de varetas e panos, lutando contra centenas de trôpegos transeuntes, igualmente armados, por um mísero espaço livre nas calçadas da avenida famosa.

(A continuar...)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Narizinho de palhaço

Balanceando aqui no leme o prumo que o bloguinho vai tomando, nem tão lírico, nem tão cru, os dois juntos, ou nada disso, endireito por um dos assuntos que naturalmente chegam aos nossos ouvidos nestas erráticas e insensíveis segundas-feiras pós-eleições. Escapulo bravamente de toda a enxurrada televisiva – já que sobrevivo saudavelmente sem precisar saber que seiscentas e treze urnas tiveram que ser substituídas ao longo do território nacional –, mas acabo invariavelmente lendo uma ruma de patacoada que me aperreia o juízo.

O que fez Sua Excelência Deputado Francisco Everardo Oliveira Silva na vida das pessoas para que agora merecesse o posto de cidadão mais odiado do Brasil? Por que esta nova algazarra generalizada em virtude da eleição de um honesto trabalhador, ainda mais engraçadíssimo? Que escândalo é esse que levantou vozes tuiteiras que sempre se mantiveram caladas quando o assunto era política? Vou me ater a um só ponto que considero importante.

Que tem alguma coisinha errada neste nosso capenga sistema eleitoral, ah isso tem. Ai de mim adentrar nos meandros deste lamaçal todo, mas só de soslaio: a indústria do voto, que incrível, não nasceu com Tiririca. Vez por outra, aliás, me pego comparando o nosso querido palhaço cearense com uns ilustres engravatados por aí, também com passaporte carimbado para Brasília. Óbvio que nenhum do Rio Grande do Norte, estado vanguardista na decência cívica. Hmm, a comparação – não sei viu? Os quatro patinhos na lagoa ganhariam possivelmente mais uma dedada.

O meu e o teu voto não são melhores que o voto de ninguém. Temos a pedante mania de nos acharmos OS esclarecidos, OS instruídos, OS sabidões, e os outros, um bando de iletrados ignorantes, que vendem sua cidadania em troca de saco de farinha. Pois veja, eu nasci na mesmíssima casa que minha amada irmã, me alimentei dos mesmos camarõeszinhos que nos foram ofertados, idem para educação e tudo o mais. Resultado: todos os nossos votos foram diferentes, todos. Eu estou certo ou ela? Ou quem optou por escolher alguém humilde e honesto, parecido com ele, para fazer valer seus interesses (ah não, a pobrada não tem instrução pra escolher seus preferidos). O outro lá, banqueiro mascarado, porém sem peruca, é quem vai olhar pelos migrantes nordestinos, né? Pff.

Que se faça então o que minha irmãzinha sugeriu: um teste de proficiência em espírito público (para ela, a palavra era "gestão"). Senhores, não estou sendo hipócrita ou dissimulado: eu não sei quem passaria. Possivelmente ninguém. Só que não venha então crucificar o tal do Francisco Everardo. Pior foi o teu amigo, que votou naquele lá que tu conheces: o Mauricinho Machado (se não lembra, clique aqui), sabe? Será que é o Tiririca mesmo que não sabe ler? Ou o teu amigo, que não se lembra daquela denúncia que apareceu nos jornais?

Há uma total inversão de valores e há um mulambento processo eleitoral. A eleição de um palhaço é significativa para se perceber que as nossas casas políticas espalhadas pelo país transformaram-se verdadeiramente em circos armados. Só que antes de levantar da cadeira e querer empurrar o nosso protagonista para assistente do lançador de facas, vale a pena prestar atenção aos gatunos e bem vestidos malabaristas, antes que o globo fique apertado demais para podermos rodar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sera toujours à vos côtés (ou algo assim)

Era bom quando ainda podia ouvir tua voz ao meu ouvido. Sei que às vezes pedia para calares tua matraca de doida desvairada, mas no fundo, no fundo, eu gostava. Reclamava, acho, só para te fazer rir das minhas rabugentices sem motivo. Só que aí, ao invés da boca descontrolada, tu encarnavas uma gargalhada alta, meu Deus, muito alta. Tua gargalhada era meio estranha, era composta de gritos. O primeiro assustava quem passava perto de onde estávamos, lá na praia. Depois ia diminuindo, acalmando.

Estendíamos a canga de desenhos psicodélicos na areia, cavando buraquinhos nas quatro pontas para que o vento não levasse. Eu segurava de um lado, tu do outro, e brincávamos, antes de enfiar, de alguma coisa meio sem sentido, balançando o pano para cá e para lá. Talvez tu não tenhas reparado, mas eu deixava o lado a favor do vento para ti – para que não te enchesse de areia quando me mexesse.

Deitávamos. Ligávamos teu sonzinho, eu com o fone na orelha direita, tu na esquerda. Era bem provável que tu viesses com um samba estranho que ouviu nos bares estranhos que tu ias com tua galera estranha, mas eu me adiantava. Mandava um Los Hermanos baixinho, começando com De onde vem a calma, cujo primeiro acorde, bem de supetão, elevava nossas cabeças para algum ponto estratégica e perfeitamente situado no meião da mesosfera, de onde estaríamos a salvo de todos os urubus e aviões a jato da redondeza, e de onde poderíamos assistir, com os dedos mindinhos dos pés elevados sobre seus vizinhos, ao majestoso e único pôr-do-sol que se sucedia ali embaixo, aos pés do Morro do Careca.

Eu, me agoniando todo por não encontrar uma posição inofensiva às minhas costas, procurava um galhinho enterrado na areia e punha-me a desenhar nomes engraçados e pornografias. Pensava em começar a te contar uma história mirabolante que me ocorreu no dia anterior, mas ficava com preguiça e deixava para lá. Não havia nada que eu pudesse contar que já não soubesses. Teu monólogo plainava em uma das dimensões paralelas que eu requisitava para a hora e era tragado pelo barulho do mar.

Sei que a tarde ia embora naquele silêncio dos teus gritinhos e naquela paz que nem as formosas sequóias-gigantes do norte californiano poderiam sequer sonhar. Naquele nosso calhambeque velho, comprado a troco de gelo nos ombros, nós embarcávamos no mundo kerouacquiano da mais verdadeira amizade existente na Terra.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ideologia de verão

A cada dois anos eles surgem. Quem eles são (eles mesmo, não a sua estirpe), na verdade, não interessa muito. O que eles fazem, pior ainda. São quase sempre invisíveis cidadãos brasileiros, que incorporam, de tempos em tempos, um novo significado à sua estimada vida. São os pseudo-entendedores-de-política, raça chata de doer.

Durante os ... (deixa eu multiplicar aqui – 365 vezes 2, descontando uns dois meses, quando efetivamente começa a campanha, hmm), durante uns setecentos dias, mais ou menos, são pessoas que pouco, ou quase nada, tocam no assunto política. Não sabem, nem de longe, o que está acontecendo lá por Brasília ou pelo seu Estado. O-d-e-i-a-m esse tipo de discussão em mesa de bar. Para ter o que falar, tiram sarro de Chávez, sem bem saber por que (é um ditador, basta), e ridicularizam o presidente alcoólatra que têm.

Mas eis que, como inflamadas abelhinhas barulhentas, elas surgem no meio social. As plataformas digitais dão o primeiro alerta de chegada. O antigo nickname "Mauricinho Machado" vira agora "Mauricinho Machado – Fulano das Tapioca 17111, Pelo povo!". As fotos do Orkut ganham tarjetas brilhantes com nome e número dos preferidos. Mas é no Twitter, maldito Twitter, que eles se superam: transformam-se nos reis dos RT's. Tudo vale: "Fulano das Tapioca visitou hoje a Creche Estamos com Fome... À vitória, meu deputado!"; "Pesquisa Encomendamostudo mostra: Tapioquinha estaria na Assembleia hoje!".

A sua ideologia política alcança à moda (não tem quem faça Maria Joaquina aparecer nos cantos com blusa de outra cor que não seja azul; vermelho, jamaaais). A facada final, a derradeira cartada, símbolo máximo da devoção irrestrita ao ídolo-candidato é linda: nossos amigos, em ato de incrível adoração, entregam a fachada valiosa de seu querido automóvel! Passeiam pela cidade em seu alegórico possante, distribuindo buzinadas fraternas e sorrisos celestiais.

Bem pensei em parar por aqui. Deixaria margens para discussões. O leitor otimista certamente iria ponderar sobre a riqueza de nossa democracia, a maravilha que é a participação popular na defesa do interesse público. Veja só que beleza, calorosos partidários indo às ruas, faixas nas cabeças, lutando a favor das causas pelas quais seus peitos juvenis pulsam sem parar. Infelizmente, não dá.

Mauricinho Machado, tive que apurar, não é outro senão o sobrinho-neto de Fulano das Tapioca. Sua construtora, de uma hora para outra, andou milagrosamente conseguindo uns servicinhos junto ao Governo, e é bom que a mamata não cesse. Maria Joaquina, coitada, tem que deixar a roupa vermelha em casa, mas é por um bom motivo. Se Jorginho, seu cunhado, ganhar as eleições, vai poder permanecer no cargo lá da secretaria, onde aparece vez por outra.

Eles seguem, inabaláveis na nova causa de suas vidas. Decoraram três números que ilustram toda a magnitude do seu idolatrado, e mais três que despencam a idoneidade do candidato adversário. Se encontram alguém que conteste o que dizem, resmungam e replicam dizendo que ele está louco, não sabe nada de política. Assim aguardam o fim da peleja, o doce sabor da vitória. Sorrirão triunfantes com o sucesso, tirarão o adesivo ridículo de seus carros e retornarão a mesquinhez de suas vidas invisíveis.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Illusio

Seu corpo todo tremeu. Os olhos pararam de ver, apenas miraram o nada; as unhas cravaram-se no peito do outro, arrancando farpas de couro suado; o grito que crescia, ritmado na gravidade nua, rasgou-se finalmente no quarto, ecoando nos segundos de secreção e paz.

Desfaleceu-se. Tombou a cabeça no braço dele, erguendo maciamente seu seio direito. Por minutos, nada disse. Acompanhando o compasso, subia e descia de acordo com o ar que ele puxava.

- Você vai?

- Tu sabes que não posso ficar.

Passou o braço e apertou o rosto contra o peito a sua frente. Ele sentiu a lágrima quente e silenciosa escorrer sobre suas costelas.

- Você promete que volta logo?

- Te jurei nunca prometer algo.

- Nem desta vez?

- Meu amor, posso sofrer com a solidão, posso esgoelar-me com a saudade, posso te perder. Prometer que amanhã te arrancarei aos beijos de tua casa e te levarei comigo ao meu lado te fará com que hoje sonhes não mais com minha presença, mas com a lembrança do tempo em que me ver era o que mais importava em tua vida. Na minha ausência, tu rememoras com paixão minhas virtudes e vícios, ao passo que em minha inútil companhia, teus anseios não perdoarão a rotina encardida. Tu sabes que volto, e sabes que voltando, te procurarei. Mas não sou digno de te afiançar minha palavra. Serei para sempre marinheiro, e serás, para sempre, vida.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O triste drama das perninhas sufocadas

A comissária Keyla Santos está constrangida. Do seu assento reservado, aquele no sentido contrário do avião, próximo à saída de emergência, ela não tem escapatória aos olhares ininterruptos do meu vizinho. Ele está demais. Divorciou-se há pouco tempo e puxa conversa tentando rememorar seus tempos de flertador. Mas está enferrujado. Começou agora há pouco se esgueirando pelos assuntos mais acessíveis à ocasião: fala da barrinha de cereal, do tempo lá no destino, das rotas que ela seguirá.

Keyla busca desviar das investidas, o vizinho é velho demais para ela. Finjo que não existo, cá tentando me entreter com a revista da companhia e digitando o que pensam ser um trabalho da faculdade. Lá pelas tantas, no entanto, ouço uma e tenho que me meter na conversa. A comissária nos confidencia uma novidade: este assento listradinho de vermelho e verde, que ora empurro com a bunda, em pouco menos de um mês custará algumas dezenas de reais a mais.

Isso mesmo. Em poucos dias, para se sentar na fileira da porta de emergência será necessário desembolsar uma bufunfa extra. Peraí. Deixa eu ver se entendi, querida Keyla. O único lugar que me cabe neste maldito cubículo alado vai cutucar meu bolso ainda mais? Estes parcos centímetros de alívio para minhas pernas também entrarão na dança do capitalismo doido? Perdão, vizinho, por atrapalhar tuas cantadas infames, mas, vem cá, dona Keyla, você tá de brincadeira comigo, né?

Tou medindo aqui. A distância entre os assentos normais, os desvalorizados agora, é de aproximadamente três palmos, contados do encosto à bandejinha da frente. Embaixo, a parada é sinistra: cabe apenas um, eu disse um, palmo desta minha mão tecladora. De modo que não é preciso qualquer demonstração física ou matemática para perceber que um cidadão de um metro e noventa e três centímetros simplesmente NÃO CABE neste bagulho.

Alguém tem de fazer alguma coisa! Não é possível que não exista uma associação-de-pessoas-maiores-de-um-metro-e-oitenta-e-cinco qualquer por aí, que possa fazer uma algazarra e mobilizar as autoridades a pensar na gente. A situação é claríssima: com os nutrientes e as vitaminas dos nossos biscoitos passatempo, a população a cada geração vai crescendo. Cobrar alguém por ser alto é o fim da picada - e das minhas pernas. Não bastasse a porra da barrinha de cereal, daqui a pouco, para poder voar, tenho que fazer trinta flexões de braço, rezar seis terços e ainda pedir desculpas por existir... #Prontodesabafei, dona Keyla, pode voltar pra sua paquera aí...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

coisa séria

não pai se for pra ser assim eu não quero não a minha sapatilha branca tudo bem você tava certo ela amoleceu de tanto usar e aqueles calos de sangue que você furou com agulha mas não doeu nunca mais me infernizaram graças a deus também o apartamento novo e ter que deixar o quintal da casa velha e o pé de jambo e argos e até a casa de bonecas que você nunca fez tudo bem também vá lá aqui tem as meninas do trezentos e dois que são legais mas o que você tá querendo dizer com casar é uma questão só de costume só porque mamãe foi lá pra vovó e não vai voltar e você diz que foi uma tal de incom incompa uns problemas com ela nãnãninãnão amar não é acostumar não senhor você tá é com intriguinha de criança e não enxerga as coisas direito pois meu filho eu vou casar com o homem mais bonito de todos e todos os dias antes de entrar na minha casa ele vai ler uma declaração de amor nova que ele escreveu enquanto chorava pensando em mim e vai me banhar de chocolate rosas e amor e vai me chamar de pretinha igual você chamava mamãe no início só que sem pedir nada depois acostumar eu acostumei com a sapatilha e o apartamento mas de amor vocês adultos não entendem é nada só brigam e não entendem que o amor é todo dia arguinhos se foi e eu lembro dele todo dia mas sei que todo dia eu brincava com ele até eu não aguentar mais as lambidas dele mas mesmo as lambidas nojentas eu gostava porque eu sei que era de verdade e ele sabe que eu deixava ser lambida porque também era de verdade amor não é brincar com a boneca só quando tá com vontade e deixar ela de lado por uns tempos amor é sorrir pai se não for assim não me deixe crescer mais me deixe aqui pra sempre pra sempre pra

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O leitor

Depois de um longo período improdutivo, faltando saco para escrever, aproveito aqui um trabalho que fiz para a faculdade para movimentar o blog - vai que assim recupero o ímpeto. Precisava fazer um perfil jornalístico sobre um anônimo. Lembrei do porteiro do prédio de um amigo. A história - verídica - é interessante.

***

Perfil: O leitor

O morador do 503 estava de saída. Desceu pelo elevador e procurou o porteiro, a quem precisava deixar um recado. Zanzou pelo térreo, nada. Foi dar com ele já do lado externo do prédio, mas antes de ser visto, parou para observar a cena curiosa que se dava porta afora. Na rua, a Nossa Senhora de Copacabana, esperançoso em ver seu chapéu ao chão encher-se de moedas, um violinista tocava o seu instrumento. Nenhuma surpresa, os artistas cariocas estão sempre perambulando por aquela zona. A novidade para o habitante do Edifício Mecejana foi perceber que quem escolhia as músicas a serem tocadas era justamente o porteiro, escorado acanhadamente na pilastra. De Tchaikovsky, o músico emplacou um Villa-Lobos arranhado, mas o seu definidor de repertório gostou. Era o seu compositor preferido.

Lá em Boqueirão, na Paraíba, possivelmente ninguém, nem mesmo os familiares do porteiro de Copacabana, iria entender bem esses gostos estranhos do rapaz. Por lá a vida é dura, a roça é que dita os acordes. Os pais de Carlos André do Nascimento, criaturas boas, decentes, ainda que desejassem um melhor futuro para os dois filhos, não puderam prescindir da ajuda deles no sustento do casebre. A quarta série não chegou a terminar e já trabalhavam em tempo integral.

Aos dezoito anos, matutando no ônibus para o Rio de Janeiro, Carlos sabia que tinha tomado a decisão certa; não queria sofrer tanto quanto os pais. Ainda assim, seguindo sul adentro a trilha feita por milhares de nordestinos, não parava de pensar em casa. Mesmo hoje, homem feito, beirando os trinta, tem dúvidas se nasceu para viver longe deles. A infância no sertão, cuja recordação lhe mareja os olhos de saudade, é resumida em liberdade e simplicidade.

Lembra da difícil chegada na cidade grande. Esbarrou na solidão, companheira de alguns anos – até que encontrasse um par com quem hoje divide a vida; mas o que mais afetou sua sensibilidade latente foi o preconceito. Olhando para trás, acha agora que foi abocanhado pela depressão, como sua mãe um dia. Na época, doía não saber falar "corretamente", ser limitado nos assuntos. Queria poder surpreender, ter conhecimento.

Carlos não sabe bem em que momento da vida despertou sua paixão pela literatura. Na verdade, já na Paraíba queria ler, mas não tinha acesso. Foi só quando foi fazer um serviço no apartamento de Seu Renato que as portas para a leitura foram abertas. Bailarino do Teatro Municipal, dono de uma bela biblioteca, o morador, percebendo a empolgação do porteiro, perguntou que livro lia no momento. Era um livro didático de biologia, que tinha conseguido por aí.

Com a biblioteca de Seu Renato inteiramente disponível, com caixotes de livros que moradores em mudança deixavam, com outro tanto tomado emprestado, uma verdadeira batalha pelo tempo perdido foi travada. Quem passasse pela portaria, fosse de manhã, tarde ou noite, sequer veria o rosto de Carlos, afundado que estava nas páginas. Houve até quem se queixasse de que estava faltando atenção ao serviço.

Lia tudo o que aparecia pela frente. De Proust a Fernando Sabino, de Voltaire a Artur daTávola. A coleção de vinte e três volumes de Eça de Queirós ele comprou por seis reais, com uns vendedores meio suspeitos que andavam pela Praça XV. Sócrates, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado, fala com proximidade e segurança dos grandes escritores. Mas não é bajulador; quando não entende o que dizem, não gosta.

O gosto pela literatura desembocou na música. No rádio, ligado baixinho na portaria, ouvia Rafael Rabello, Baden Powell, Vinícius de Morais, compositores de música erudita etc. Bastava fechar os olhos e se via em um palco, aqui ou fora do Brasil, dedilhando seu violão para um público extasiado. Mas o cansaço quando chegava em casa não lhe permitia exercitar os treinos que assistia nas videoaulas. Também, é sincero em assumir a falta de talento.

Segundo diz, o conhecimento que adquiriu na arte trouxe mais noção da condição humana. De fato, os moradores do Edifício Mecejana, que pouco ou nada conversam ao apressarem-se pelo hall de entrada, espantar-se-iam com as muito bem argumentadas posições do porteiro. Se não vissem ali apenas um introvertido sujeito "estranhão", embarcariam em profundas discussões sobre política ou sociologia, com ótima análise dos papéis sociais ou das precariedades da educação brasileira.

Já na despedida, usando as palavras de Renato Russo para sua fase "meio gota d'água, meio grão de areia", acha que para continuar vivo precisa simplificar, manter seu espírito jovem. E, logo depois de abrir a porta para uma moradora, recita um singelo poema que escreveu, "à la Patativa do Assaré":

No meio da multidão
E eu me sinto sozinho
Talvez por ser um pássaro
Que está distante do ninho
Eu encontro a alegria
Tocando meu violão
Indo a uma livraria
Ou vendo um filme de ação
Assim esqueço a saudade
Que o meu peito invade
Quando lembro do sertão.